Título: Marcha da insensatez
Autor: Nunes, Vicente ; D"Angelo, Ana
Fonte: Correio Braziliense, 27/07/2011, Economia, p. 8
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, garantiu ontem que a economia brasileira está sólida para enfrentar maiores turbulências, que poderiam ocorrer no cenário global se o governo e o Congresso dos Estados não chegarem a um acordo para elevar o teto da dívida. "O Brasil é um dos países mais bem preparados para enfrentar esses problemas que se colocam no horizonte internacional", assegurou ontem, em apresentação ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). Ele qualificou o impasse entre democratas e republicanos de "marcha da insensatez", mas torce para que o desfecho não seja o calote no pagamento das dívidas do governo norte-americano.
Na avaliação de Mantega, o país é hoje menos vulnerável porque fortaleceu seu mercado interno, estimulado pela entrada de 50 milhões de pessoas na classe média e pelo controle da inflação, conquistas obtidas nos últimos 16 anos. O ministro repetiu que o governo está atento aos movimentos no câmbio e que o governo tomará as medidas necessárias para coibir a continuidade da valorização excessiva do real. "Não podemos antecipá-las, mas podem esperar. Os especuladores que se acautelem", ameaçou. "Não vamos deixar a guerra cambial nos derrotar."
Pressões Mantega disse que o governo vai conseguir manter a inflação dentro do teto da meta estipulada de 6,5% neste ano. "O cenário não é tão tranquilo assim", ponderou o economista Raphael Martello, da Tendências. A consultoria estima que os índices podem ser pressionados pelos setores de serviços e de alimentos e devem fechar acima de 6,6%. Martello crê que algum acordo deve sair nos EUA, nem que seja "um tapa-buraco de curto prazo".
Porém, em caso de calote, os impactos negativos no Brasil não seriam na alta da inflação. "O problema será com a alta dos índices de desemprego", explicou. O Brasil poderia estar em situação melhor se tivesse começado a fazer as reformas trabalhista, tributária e fiscal. "Não vejo discussão sobre o assunto. A única coisa que o governo fez foi a estabilidade monetária, que, daqui a pouco, também pode ser abalada", lembrou Marcelo Gazzano, economista do Royal Bank of Scotland.