A queda acentuada de popularidade da presidente Dilma Rousseff, que neste domingo será alvo de protestos em diversas cidades do País, coincide com a mais intensa reversão de expectativas econômicas ocorrida nas últimas duas décadas. Desde o início de seu segundo mandato, o número de eleitores com medo do aumento do desemprego e da inflação chegou às alturas, poucos meses depois de atingir, durante a campanha eleitoral, os níveis mais baixos desde o governo Fernando Henrique Cardoso.

 

O pessimismo em relação ao aumento da inflação, segundo série histórica de pesquisas do instituto Datafolha, supera atualmente até os níveis registrados logo após a desvalorização do real ocorrida no início do segundo mandato de FHC. A preocupação com o desemprego ainda não chegou ao patamar da era tucana, mas a linha de tendência aponta para isso.

 

Os gráficos publicados nesta página mostram como se manifestaram as ondas de pessimismo econômico nos cinco primeiros anos de governo dos três últimos presidentes. As linhas revelam uma clara tendência de melhora das expectativas durante as campanhas eleitorais de reeleição - época de bombardeio de propaganda na televisão - e de piora no primeiro ano do segundo mandato. Mas as guinadas da gestão Dilma se destacam pela intensidade.

 

O pessimismo em relação à economia ajuda a explicar os ânimos acirrados contra a presidente, evidenciados no "panelaço" do domingo passado e em manifestações que hoje tentam se lançar do palco virtual das redes sociais para o concreto das ruas e praças e de cidades grandes e médias.

 

Mas o panelaço e o bombardeio virtual contra a presidente e seu partido são também a continuação de um movimento já observado na campanha eleitoral do ano passado, marcada pela acirrada polarização entre o eleitorado pró e anti-PT.

 

Após a eleição, que Dilma venceu com 51,6% dos votos - o placar mais apertado desde a redemocratização -, a mobilização de grupos contrários à presidente ganhou impulso com o detalhamento do escândalo de corrupção da Petrobrás e a acusação, feita por ex-funcionários da estatal, de que partidos da base governista foram beneficiados pelo desvio de recursos.

 

A onda de insatisfação também se alimentou da série de más notícias no front econômico, desde a aceleração da inflação ao anúncio de medidas impopulares para reduzir o déficit público. No início de fevereiro, segundo o Datafolha, 44% dos brasileiros consideravam o governo ruim ou péssimo - a taxa mais alta da gestão da petista.

 

Dispersão. A fragilidade do governo também se evidencia no Congresso. No início de seu segundo mandato, Dilma está com a mais baixa taxa de fidelidade na Câmara dos Deputados desde o início da série histórica do Basômetro, ferramenta interativa do Estadão Dados que calcula a taxa de governismo dos parlamentares brasileiros. Desde 2003, no primeiro ano do governo Lula, nenhum presidente teve de lidar com uma base tão adversa.

 

Nas 14 votações que já ocorreram em 2015, em média, 70% dos votos dos deputados seguiram a orientação do governo. Essa taxa está 11 pontos abaixo da registrada nas primeiras 14 votações do segundo governo Lula - a melhor marca nessa mesma faixa de comparação. A situação tende a piorar para a presidente, já que, em regra geral, o início de governo costuma ter as maiores taxas de governismo do mandato.

 

Outra maneira de avaliar o governismo é medir o chamado "núcleo duro" do governo, formado por deputados que sempre ou quase sempre votam de acordo com a orientação do Executivo. Neste início de mandato, apenas 114 parlamentares votaram 90% das vezes ou mais com o governo, o que representa 30% do total - quase metade do que no mesmo período do governo anterior de Dilma, em que 58% dos deputados faziam parte do núcleo duro.

 

Planalto monta 'gabinete de crise' para acompanhar atos

O governo montou uma espécie de "gabinete de crise" para acompanhar as manifestações deste domingo . No Planalto, os últimos dias foram batizados de "semana do fim do mundo". Da CPI da Petrobrás às vaias dirigidas a Dilma Rousseff, em São Paulo, tudo parece conspirar contra a presidente. 

 

Pesquisas internas mostram uma deterioração maior da imagem de Dilma. Sua popularidade está em queda livre e, com apenas dois meses e meio de segundo mandato, ela perde apoio em todas as camadas da população, e não só na classe média. 

 

O receio do governo, nas manifestações, é com o quebra-quebra, o vandalismo e o aumento do tom contra Dilma.

uxiliares da presidente admitem que o cenário político atual é "muito pior" do que o de junho de 2013, quando ocorreram vários protestos pelo País. O diagnóstico reservado é um só: diante de uma rebelião na base aliada do governo e do mau humor dos eleitores, qualquer fagulha pode se espalhar como fogo no canavial.

 

Levantamentos em poder do governo indicam que a população não aguenta mais tanta denúncia de corrupção, lamenta a perda de prestígio da Petrobrás, reclama da inflação e associa a classe política à roubalheira. 

 

PRONTIDÃO

Surpreendida com o "panelaço" do último domingo, quando fazia um pronunciamento no rádio e na TV – no qual pediu "paciência" com a crise –, Dilma convocou os ministros que compõem a coordenação do governo para ficarem de prontidão, neste domingo, em Brasília. À noite haverá uma reunião da presidente com os auxiliares, no Palácio da Alvorada, que servirá de termômetro para os próximos passos. 

 

A manifestação de sexta-feira, puxada por CUT, MST, UNE e movimentos sociais, foi vista no Planalto com alívio. "Foi um movimento pacífico, mesmo em São Paulo", observou Miguel Rossetto, ministro da Secretaria-Geral da Presidência. Os motes daqueles atos eram a defesa da Petrobrás, dos direitos trabalhistas e da reforma política. 

 

A expectativa é que o maior foco do protesto também esteja em São Paulo, Estado governado pelo PSDB e reduto anti-PT. 

 

Em jantar com Dilma no Alvorada, terça-feira passada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aconselhou a sucessora a lançar o mais rápido possível uma "agenda do crescimento", para se contrapor às medidas amargas do ajuste fiscal. "Até hoje nós não sabemos o que aconteceu em junho de 2013. E se todo o protesto contra tudo o que está aí vier agora com mais força?", disse Lula a Dilma. 

 

Para o ex-presidente, Dilma errou ao fazer um pronunciamento muito longo, no Dia da Mulher, sem indicar claramente onde o governo quer chegar com o sacrifício imposto à população. Lula acredita que, se o governo não vender esperança nem criar um ambiente de estímulo aos investimentos, o pessimismo vai continuar. No diagnóstico de Lula, a CPI da Petrobrás, mesmo esvaziada, tem potencial para criar fatos políticos e prejudicar ainda mais o PT e o Planalto. 

 

REFLEXÃO

O PT também pretende promover reuniões com os dirigentes para decidir os próximos passos, segundo o presidente nacional da legenda, Rui Falcão. "O Brasil muda, o PT muda com o Brasil", afirmou, ao chegar ontem a evento do diretório gaúcho, em Porto Alegre. "No final do mês eu pretendo chamar todos os presidentes estaduais para uma reflexão sobre a conjuntura."

 

De acordo com Falcão, Lula vai ajudar nas discussões sobre os rumos do PT. "Ele é a maior liderança que o País já produziu." /COLABOROU GABRIELA LARA