Os 100 primeiros dias do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff foram marcados pela volta maciça de um elemento que muito atormentou o governo em 2013: as manifestações. Mais discretos nos dois primeiros meses do ano, diversos protestos foram organizados para, principalmente, criticar a presidente e atingiram o ápice em 15 de março. Paralelamente aos atos, estão as pesquisas de opinião, que mostram uma aprovação pífia do governo. O Planalto procura dar respostas neste cenário desfavorável. Especialistas ouvidos pelo Correio, no entanto, acreditam que as melhorias não virão tão cedo e essas condições acompanharão Dilma por um longo período.

Desde o dia 15, quando mais de 1 milhão de pessoas foram às ruas contra Dilma, e do panelaço, de 8 de março, o governo tem repetido mantras para resgatar a popularidade. Dois dias depois do protesto, o governo finalmente tirou do papel o pacote anticorrupção, prometido durante a campanha. A reforma política também passou a ser citada com mais força. Diálogo e humildade tornaram-se constantes no discurso de ministros e da presidente, que, inclusive, aumentou a frequência com que eles ocorrem. Enquanto isso, o governo corre para aprovar as medidas de ajuste fiscal, impopulares, mas, segundo ele, indispensáveis para o crescimento do país.

Doutor em ciência política e professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Rui Tavares Maluf acredita que a avaliação negativa não surpreende, mas desafia o governo. “Não acho que o cenário muda a curto prazo. A melhor resposta é a economia dar sinais de melhora. E me parece que nesse campo estão faltando elementos. À medida que a população começa a sentir no bolso a diferença, é de se esperar melhora nos índices.” Para ele, somente anunciar as medidas não surte o efeito desejado. “O importante é perceber mudanças. Seguramente, os atos continuarão ocorrendo e a presidente vai ter de lidar com elas.”

Professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Paulo Calmon avalia que o governo tem tentado responder à queda da popularidade, seja com anúncio de medidas anticorrupção, seja com troca de ministros, entre outros. “Mudanças estão acontecendo no mundo todo. Há protestos na Europa, nos Estados Unidos, então vemos um momento em que as populações tomam as ruas. É um processo que veio para ficar”, disse.

O professor explica que a insatisfação com o governo resulta de um processo mais complexo e longo. “É um processo de polarização que já vem de muito antes. Não surgiu nesses 100 dias.” Os protestos marcados para 12 de abril, também contra Dilma, podem servir para ver de que forma os manifestantes estão respondendo às medidas do governo.