Título: Os riscos da Copa. E não falo de estádio
Autor: Cavalcanti, Leonardo
Fonte: Correio Braziliense, 30/07/2011, Política, p. 4
Não, não é para estragar a festa do Ministério do Turismo, que prevê desembarque recorde de estrangeiros e de grana em 2014. Mas nada é mais relevante neste momento do que criar uma rede de proteção contra abusos sexuais de crianças e adolescentes
Uma pesquisa interna sobre o perfil dos visitantes estrangeiros para a Copa de 2014 foi recebida com festa no Ministério do Turismo. O gasto médio desses camaradas com a viagem, tirando da conta a passagem aérea internacional, deve ultrapassar os R$ 11 mil. E mais: eles querem visitar outras cidades durante o mês dos jogos. Yeah!, os estrangeiros têm grana e estão dispostos a gastá-la. Um dado, entretanto, preocupa os defensores dos direitos das crianças e dos adolescentes. E é disso que tratarei aqui, algo além do futebol.
A pesquisa do Turismo comprovou o que já se esperava. A grande maioria dos nossos futuros visitantes é formada por homens (83%). Desses, 60% solteiros. Um detalhe: não fica claro pela pesquisa se os casados desembarcarão com as respectivas mulheres aqui. O levantamento, encomendado à Fundação Getúlio Vargas, ouviu 4.835 espectadores da Copa da África do Sul, em 2010 ¿ 94% desses entrevistados não eram brasileiros. É uma mostra mais do que qualificada, pois trata-se de estimativa entre frequentadores do evento esportivo.
A expectativa do Ministério do Turismo é a de que 600 mil estrangeiros venham ao Brasil no período da Copa do Mundo. Numa conta simples, quase 500 mil homens à procura de jogos de futebol, turismo, música de qualidade, boa comida, dança, carnaval ¿ alguns dos entrevistados não foram informados que a festa ocorre em fevereiro, no máximo, março ¿ e sexo, pago ou não. E aí é que entra a preocupação dos movimentos sociais contra exploração sexual de crianças e adolescentes.
Vulnerável O Brasil ainda não conseguiu proteger as crianças e os adolescentes. A vulnerabilidade é tamanha, principalmente nas capitais "abençoadas" com os grandes empreendimentos dos governos federal e estaduais. Reportagem da Folha de S.Paulo do último domingo, por exemplo, mostra que as obras do Rodoanel ¿ a autoestrada que circunda a região metropolitana da capital paulista ¿ deixaram "órfãos" na região do ABC. Mulheres, muitas delas adolescentes, engravidaram de trabalhadores que permaneceram num dos trechos da via entre 2008 e 2010 e depois foram embora. Segundo relatos de líderes comunitários pelo país afora, o mesmo ocorre nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Um relatório feito a pedido do Movimento dos Atingidos por Barragens e pela diocese de Porto Velho aponta que as obras de Jirau e Santo Antônio resultaram no aumento de 18% das denúncias de exploração sexual de crianças e adolescentes, entre 2008 e 2010. A preocupação estende-se pelo fato de que 72% das denúncias feitas ao Disque Direitos Humanos (Disque 100) foram registradas nas 12 cidades sedes da Copa, segundo mostrou este Correio no mês passado. Se alguma autoridade vier a público hoje e disser que até a Copa tudo estará resolvido e o país terá uma rede de proteção eficiente para crianças e adolescentes, poderá ser chamada de mentirosa.
Neste grave tema, ufanismos e marquetagem devem ficar de fora. Se não estamos preparados para proteger crianças e adolescentes, que venha logo a prioridade. Até a Copa de 2014, sempre haverá alguém a falar sobre atrasos nas obras e superfaturamento nas licitações. Nessa lista ¿ e até como primeiro ponto ¿ deve constar a precariedade das políticas públicas sobre a infância e a adolescência. Caso contrário, para fazer referência a um comercial antigo, seremos campeões. Da vergonha. E o dinheiro deixado aqui por turistas estrangeiros não terá valido a pena.
Outra coisa A entrevista com o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, publicada por este Correio vale a pena ser conferida. Quem não viu o texto, o link está lá no www.correiobraziliense.com.br. Boa leitura.