O Rio é a cidade emblemática do Brasil, a mais conhecida e a que mais interesse desperta no resto do mundo. O Brasil não pode perder oportunidades de se valer do Rio como fator de irradiação da influência do país. Nem deve perder oportunidades de fortalecer a cidade como polo internacional quando a ocasião se apresenta.

Digo isso a propósito das negociações em curso entre os países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Os cinco vêm trabalhando, desde 2012, para estabelecer um banco de desenvolvimento, o Novo Banco de Desenvolvimento (New Development Bank, NDB) e um fundo monetário, o Arranjo Contigente de Reservas (Contingent Reserve Arrangement, CRA). Já falei a respeito nesta coluna. Os acordos do CRA e do NDB foram assinados em Fortaleza, ano passado. Estamos agora na fase de implantação e definição operacional das duas iniciativas.

Aqui entra o Rio. O NDB terá a sede em Xangai. O primeiro escritório regional será em Johanesburgo e haverá também um escritório regional no Brasil. A sede do CRA ainda não foi definida. Na negociação do NDB, o Brasil acabou não sendo adequadamente contemplado em algumas definições básicas. A China ficou com a sede e a Índia com a primeira presidência do banco. Corre-se o risco de que o NDB venha a ser essencialmente asiático, dominado pela China e pela Índia, sobretudo pela primeira, com os outros três desempenhando papel caudatário.

O Brasil não chegou a pleitear a sede do NDB, ficando sem fichas na negociação de alguns temas básicos. A Índia insistiu até o fim em sediar o banco e acabou levando a presidência.

Não devemos cometer o mesmo erro na definição da sede do CRA. Cabe entrar na disputa com cidade competitiva e atraente. O Rio seria a opção natural — até porque é a sede do nosso único banco de desenvolvimento com forte atuação internacional, o BNDES.

A China deseja sediar o CRA também em Xangai. Se prevalecer essa proposta, Xangai se transformaria na nova Washington — sede do banco e do fundo monetário do Brics. Os outros países apareceriam como linha auxiliar em duas iniciativas comandadas pela China.

O BNDES tem estado ausente do processo de negociação do NDB. É uma pena, porque o BNDES dispõe de recursos humanos de primeira linha, conhecimento especializado, ótimas instalações físicas e flexibilidade financeira, o que o tornaria muito útil na fase de implementação do CRA e do NDB, particularmente deste último.

O BNDES poderia, por exemplo, sediar o escritório regional do NDB para a América Latina e o Caribe. Poderia, também, abrigar o secretariado ou a unidade de surveillance do CRA, previstos no tratado que constituiu o arranjo. É importante que brasileiros estejam bem representados, desde o começo, nos quadros do NDB e do CRA. Em qualquer organização internacional, o corpo técnico tem, na prática, grande influência sobre a atuação da organização, em geral maior do que o previsto nos estatutos. O BNDES poderia contribuir de forma importante para a atração e formação de brasileiros para integrar os quadros do NDB.

Em suma, caberia ao Brasil buscar papel de destaque para o Rio e o BNDES na concretização das instituições que estão sendo constituídas pelo Brics.

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista e diretor-executivo pelo Brasil e mais dez países no Fundo Monetário Internacional, mas expressa os seus pontos de vista em caráter pessoal