Mesmo com o país em recessão, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu ontem, por unanimidade, aumentar em 0,50 ponto percentual a taxa básica de juros (Selic), para 13,25% ao ano. Foi a quinta elevação consecutiva desde a reeleição de Dilma Rousseff, em outubro passado. Com isso, a Selic atingiu o maior patamar desde dezembro de 2008, auge da crise financeira mundial. Apesar de esperada, a alta levou aflição ao Palácio do Planalto, que teme um tombo ainda maior da atividade. A torcida é para que o BC tenha encerrado o arrocho.

Os analistas, porém, apostam em mais uma elevação de 0,25 ponto em junho, para 13,50%, quando, então, o Copom daria fim ao ciclo de aumento da Selic. Essa visão está baseada no comunicado pós-reunião emitido pela autoridade monetária. As palavras usadas para explicar a alta dos juros foram as mesmas do documento anterior. O BC disse que tomou a decisão depois de avaliar o quadro macroeconômico e as perspectivas para a inflação, que vem se mantendo acima de 8% em 12 meses.

A elevação da Selic consolidou o Brasil como país com a maior taxa real de juros (que desconta a inflação) do mundo. Pelas contas do economista Jason Vieira, do portal MoneYou, o indicador está em 4,76% ao ano, à frente da Índia (3,17%), da China (2,18%), de Taiwan (1,68%) e da Polônia (1,60%). Não por acaso, o setor produtivo criticou a decisão do Copom.

Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o salto da Selic desestimulará ainda mais os investimentos e o consumo das famílias. Para a entidade, as dificuldades para a retomada da produção e do crescimento econômico vão aumentar. O presidente da CNI, Robson Andrade, disse que o Produto Interno Bruto (PIB) em queda, a recente valorização do real frente ao dólar e o ajuste nas contas públicas serão suficientes para reduzir as pressões sobre a inflação.

No entender do presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, alertou que, após a quinta alta dos juros, as expectativas de inflação permanecem acima do centro da meta oficial, de 4,5%. O problema, acredita ele, está na política econômica adotada pelo país, que prioriza o aumento da tributação e o corte dos investimentos públicos. Vieira sugeriu que o ajuste fiscal defendido pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, seja feito por meio da diminuição de gastos com a máquina pública.

Expectativas

Na opinião da economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, o Banco Central deixou em aberto a possibilidade de promover mais uma elevação da Selic. Para ela, a alta de 0,50 ponto percentual ontem foi uma sinalização ao mercado de comprometimento com a promessa de levar a inflação para a meta até o fim de 2016. Ela destacou, contudo, que a carestia deve se manter perto de 8% ao longo deste ano e cair para algo entre 5,5% e 6% no próximo.

Segundo Srour, somente uma desaceleração econômica mais intensa e uma taxa de câmbio abaixo dos patamares atuais possibilitariam que a alta do custo de vida arrefecesse para 5% em 2016. “Estimo que a economia encolherá 1,5% em 2015. Mas o problema não é o juro alto e, sim, a inflação, que tira o poder de compra das famílias. Precisamos de políticas fiscal e monetária apertadas para recuperar a confiança dos agentes”, ressaltou.

Há economistas que não descartam a possibilidade de, já no fim do ano, o BC ser obrigado a cortar a Selic. O argumento é o de que a retração econômica será tão forte, com o aumento do desemprego, que não restará outra alternativa senão a de dar um alívio nos juros. Esse grupo de profissionais acredita que, com o adiamento da alta dos juros no Estados Unidos, que mostram fragilidade na economia, o dólar poderá cair a R$ 2,50, aliviando a inflação, mas dificultando a retomada da indústria.

Na visão da economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, os últimos dados do mercado de trabalho que apontam alta do desemprego e queda da renda são uma primeira sinalização positiva para o Banco Central. Ela explicou que a inflação de serviços e os aumentos de remuneração desvinculados da produtividade pressionaram a carestia nos últimos anos. “Isso não significa que temos uma tendência consolidada, mas é um sinal favorável ao BC, que está comprometido a combater essas pressões”, afirmou.

Bradesco lucra R$ 4,2 bi, mas calotes aumentam

O Bradesco elevou a rentabilidade no primeiro trimestre, apoiado em maiores ganhos com juros e no controle de despesas, mas o resultado foi ofuscado pelo aumento da inadimplência. O segundo maior banco privado do país anunciou um lucro líquido de R$ 4,24 bilhões, alta de 23,3% ante o mesmo período de 2014. A rentabilidade sobre o patrimônio líquido cresceu 1,8 ponto percentual, para 22,3%. No entanto, o índice de calotes dos clientes, medido pelo saldo de operações vencidas há mais de 90 dias chegou a 3,6%, 0,2 ponto acima do registrado em março de 2014. Para se prevenir, o banco aumentou as previsões para perdas: o valor deu um salto de 25,1% em relação ao ano passado e totalizou R$ 3,58 bilhões.

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Ajuste fiscal ameaçado

O governo ainda continua longe da meta de alcançar neste ano um superavit primário (economia para o pagamento de juros da dívida pública) de R$ 66,3 bilhões nas contas púbicas, ou 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Em março, o governo central (Tesouro, Banco CENTRAL e Previdência) fechou com saldo positivo de R$ 1,5 bilhão. Apesar da reversão em relação a fevereiro, quando houve deficit de R$ 7,4 bilhões, há pouco a comemorar, avaliam especialistas. Na comparação com março de 2014, o desempenho caiu 54,3%. E, no acumulado do primeiro trimestre, o resultado fiscal ficou em R$ 4,6 bilhões, o pior para o período desde 1998. 

Os dados ficaram abaixo das estimativas do mercado, que, no entanto, continua dando um voto de confiança no ministro da Fazenda, Joaquim Levy. “Por enquanto, ele ainda tem crédito. Vamos ver como vai ser daqui para frente”, disse o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal. “Não é o resultado que pretendíamos, mas mostra uma reversão de tendência. É o primeiro passo para o ajuste fiscal”, afirmou o secretário do Tesouro, Marcelo Saintive. 

Para boa parte dos especialistas, porém, com o país entrando em recessão, o governo dificilmente conseguirá cumprir a meta. O economista Fabio Klein, da consultoria Tendências, calcula que o superavit chegará, no máximo, a 0,8% do PIB, já considerando as medidas provisórias em curso, que ainda não surtiram o efeito desejado. No primeiro trimestre, a arrecadação tributária encolheu 2%.

 

Resultado 

Com o recuo previsto para a economia neste ano, a meta fiscal de R$ 66,3 bilhões prevista no projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) encaminhado ao Congresso acabará significando 1,13% do PIB. Saintive, porém, assegurou que o governo continuará perseguindo o superavit de 1,2% para o setor público, independentemente do valor em reais. Vale lembrar que, para o governo central, o objetivo é de R$ 55 bilhões – o restante está a cargo de estados e municípios. Em três meses, portanto, a equipe econômica deveria ter obtido um saldo de R$ 13,7 bilhões, mas o resultado de janeiro a março correspondeu a apenas 33,4% dessa meta.

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FMI vê país desabando

Washington — O Brasil deve sofrer, em 2015, a maior desaceleração econômica em mais de duas décadas, aponta relatório divulgado ontem pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Mesmo assim, o organismo recomenda que o governo não volte atrás no aperto das políticas fiscal e monetária, apesar do efeito que recessivo que ele provoca a curto prazo. Para o Fundo, os ajustes são necessários para interromper o crescimento da dívida pública e recuperar a capacidade de crescimento da economia no futuro.

O documento “Perspectiva Econômica Regional: Hemisfério Ocidental”, o Produto Interno Bruto (PIB) do país terá retração de 1% neste ano, um dos piores desempenhos entre as principais economias do mundo. Com os ajustes em andamento, contudo, a atividade econômica pode voltar a crescer em 2016, apresentando expansão de 1%. “O ajuste em curso no Brasil é fundamental para evitar a piora da dívida e restaurar a confiança na economia brasileira”, disse o diretor do Departamento para o Hemisfério Ocidental do FMI, Alejandro Werner, ao comentar o relatório.

Sem escolha
Os técnicos do Fundo reconhecem que o ajuste fiscal conduzido pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, contribui para enfraquecer ainda mais a atividade econômica num primeiro momento, mas salientam que ele é necessário para estancar o crescimento da dívida e restaurar a confiança de investidores e empresários na economia brasileira. “As autoridades têm pouca escolha, a não ser apertar a política fiscal em meio a uma recessão”, diz o documento.

Para o FMI, vários fatores contribuem para o fraco desempenho da economia brasileira. Com a alta da inflação e o aumento do desemprego, os consumidores têm reduzido as compras. A inadimplência levou os bancos a segurar o crédito, e, com a baixa confiança na economia, os empresários não investem. A queda das cotações internacionais de commodities como soja e minério de ferro reduziu as receitas com exportações. Além disso, o escândalo de corrupção na Petrobras aumentou a incerteza sobre os rumos da economia.