Título: As razões da crise
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Fonte: Correio Braziliense, 28/07/2011, Economia, p. 14
As custosas guerras, as reduções de impostos e a crise de 2008 são alguns dos principais fatores que levaram os Estados Unidos, maior potência mundial, à beira da suspensão dos pagamentos da dívida, o que poderá afetar gravemente a economia mundial. "Durante a última década, temos gastado mais dinheiro do que recebido", disse o presidente Barack Obama em um discurso à nação, na segunda-feira à noite.
Em 2000, o orçamento federal norte-americano registrou um superavit de US$ 236,2 bilhões. Em fevereiro deste ano, o governo de Obama previu um deficit de US$ 1,6 trilhão para 2011, cifra que foi reduzida recentemente para US$ 1,3 trilhão pelo Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), uma instância não-partidária.
Os democratas gostam de lembrar que o orçamento federal tinha superavit quando Bill Clinton deixou a presidência dos Estados Unidos, em janeiro de 2001, e que o deficit começou a se elevar durante a presidência de seu sucessor, George W. Bush. Contudo, o próprio Bill Clinton se beneficiou do incremento dos impostos decidido por seu antecessor, George H. W. Bush pai, medida que pode ter lhe custado a reeleição.
A bolha no setor de informática também impulsionou os investimentos federais do governo Clinton e explodiu em março de 2001 sob a presidência de George W. Bush filho, um ano que terminaria com o envio de tropas ao Afeganistão, depois dos atentados de 11 de setembro. Em 2003, Bush ordenou a invasão do Iraque para derrubar Saddam Hussein, mas se recusou, com seus aliados republicanos, a aumentar os impostos.
Muitos democratas foram chamados a votar sobre o financiamento desses dois conflitos, entre eles o então senador Barack Obama. Por seu lado, importantes republicanos agora defensores da austeridade fiscal, como os líderes do partido na Câmara dos Representantes e no Senado, John Boehner e Mitch McConnell respectivamente, também apoiaram plenamente a proposta de George W. Bush. Os Estados Unidos gastaram US$ 1,3 trilhão nas guerras do Afeganistão e Iraque em 2011, segundo um informe publicado em março pelo Serviço de Investigação do Congresso (CRS), outra entidade não-partidária.
De acordo com o CRS, os cortes de impostos promulgadas entre 2001 e 2004 custaram, até 2011, US$ 1,7 trilhão ao orçamento federal. Além disso, um programa de reembolso de medicamentos direcionado aos idosos, aprovado em 2003 pelos dois partidos, transformou-se num custo adicional de US$ 552,2 bilhões durante 10 anos, disse o CRS.
George W. Bush herdou uma dívida de US$ 5,7 trilhões. Em janeiro de 2009, ao final de seu segundo mandato, o endividamento havia crescido em US$ 4,9 trilhões e a economia dos Estados Unidos estava sofrendo a pior parte da crise "subprime". O plano de resgate da economia estabelecido por Obama custou US$ 800 bilhões mais, mas não impulsionou o emprego. A dívida, por sua vez, continuou se acumulando, até chegar em 16 de maio de 2011 a seu teto de US$ 14,3 trilhões.
Os negros perderam A crise econômica que se abateu sobre os Estados Unidos nos últimos anos, sobretudo de 2007 para cá, maltratou especialmente os negros norte-americanos. Dados do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) mostravam que, em 2004, o patrimônio dessas famílias era de US$ 13.450, contra US$ 134.280 dos brancos. Em 2009, os negros perderam 83% do que tinham; e os brancos, apenas 24%.