A Petrobras anunciou um prejuízo de R$ 21,6 bilhões no ano passado, o primeiro resultado negativo anual desde 1991. A companhia contabilizou uma desvalorização de ativos no valor de R$ 44,6 bilhões e perdas de R$ 6,2 bilhões com o esquema de corrupção investigado na Operação Lava-Jato. Os resultados do balanços do terceiro trimestre e do ano de 2014 foram anunciados na noite de ontem, com meses de atraso. As informações financeiras foram finalmente auditadas pela empresa PricewaterhouseCooper (PwC), que, anteriormente havia, se recusado a assinar os documentos sem que as perdas contábeis com a corrupção fossem explicitadas.
Os ajustes no balanço eram aguardados com expectativa pelo mercado. A empresa explicou que a baixa de R$ 44 bilhões no valor dos ativos foi causada por diversos fatores: a postergação de projetos em curso, a queda do preço do petróleo, além da redução de demanda e das margens de ganho de produtos petroquímicos. Apenas o atraso nas obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) foi responsável por desvalorização de R$ 21,8 bilhões.
O provisionamento com perdas de recebíveis do setor elétrico, de R$ 4,5 bilhões, as baixas de R$ 2,8 bilhões de valores relacionados à construção das refinarias Premium, que foram paralisadas, e o provisionamento do progra,a de demissões voluntárias, de R$ 2,4 bilhões, completam a justificativa para o prejuízo de R$ 21,6 bilhões da maior empresa brasileira.
Apesar dos números desfavoráveis, o presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, afirmou que “a publicação do balanço foi um passo fundamental para o pleno resgate da credibilidade da companhia perante a sociedade brasileira, seus acionistas e fornecedores, rumo ao esclarecimento completo dos desvios que lesaram a empresa”. Agora, disse, a estatal voltará à normalidade.
“O maior desafio não se esgotava nos números de receita e despesas, e sim em retratar com fidelidade a reavaliação dos ativos. Fizemos um teste de imparidade (impairment), trazendo a valores atuais o custo de ativos. Para levantar as perdas com a corrupção, de R$ 6,2 bilhões, usamos informações da Polícia Federal e cálculos internos da Petrobras”, destacou o presidente. Foram criadas 105 auditorias para analisar atos dos empregados, apenas na gestão de Bendine, que assumiu em fevereiro.
“Obtivemos a chancela da PwC. Ao marco do balanço soma-se um conjunto de ações da companhia. Em especialõem relação à contratação de fornecedores com mais segurança a partir de agora. A Petrobras não vai parar, nem dar ré”, acrescentou Bendine. Ele disse ainda que, posteriormente, a diretoria vai divulgar o novo plano de negócios da estatal, e reafirmou que a produção de petróleo em campos do pré-sal não faz parte dos projetos de venda de ativos para reduzir as dívidas.
Desculpas
O endividamento líquido total da empresa passou de R$ 237,8 bilhões, em 2013, para R$ 351 bilhões em 2014, sendo 80% em dólares. A projeção de caixa da companhia para 2015 começa com saldo de US$ 26 bilhões e contabiliza uma geração de US$ 23 bilhões. A venda de ativos será de US$ 3 bilhões neste ano e de US$ 10 bilhões em 2016. Os investimentos do próximo ano, de US$ 25 bilhões, serão 37% menores do que o projetado no plano anterior, de US$ 39,65 bilhões.
Bendine, que não tem responsabilidade pelos fatos que causaram a deterioração da companhia, não hesitou em pedir desculpas aos brasileiros pelo que ocorreu com a estatal. “A Petrobras foi vítima. Eu me somo aos 86 mil funcionários da empresa e o sentimento é de vergonha. E faço um pedido de desculpas em nome dos funcionários da empresa, porque hoje eu sou um deles”, disse.
Sem dividendos
Com prejuízo de R$ 21,6 bilhões, a Petrobras decidiu preservar o caixa e não vai pagar dividendos aos acionistas neste ano. “Dividendos não serão pagos. Simplesmente não vamos pagar”, sentenciou o presidente da companhia, Aldemir Bendine. Ontem as ações da companhia tiveram um dia de volatildade. Na expectativa do balanço, abriram em queda, mas reverteram o rumo e fecharam o pregão com leve alta. Os papéis ordinários subiram 0,53%, cotados em R$ 13,31, enquanto os preferenciais avançaram 0,23%, para R$ 13,12. No mês, as ações da Petrobras se valorizaram mais de 30%.
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Valores podem mudar
O valor de R$ 50,8 bilhões apresentado pela Petrobras como perdas contábeis ainda pode sofrer alterações. “Os maiores valores já foram encontrados, mas caso surja alguma revelação crível pelas autoridades, que dê uma variação muito significativa neste número, a empresa vai rever”, afirmou o presidente da estatal, Aldemir Bendine.
Ele também admitiu que o fato de a desvalorização de ativos chegar a R$ 44,6 bilhões pode ser resultado de gestão e planejamentos mal feitos. “Estamos fazendo trabalhos internos de auditoria. Nesse conjunto, podemos identificar erros de planejamento, de projetos. Pode estar embutida ineficiência. Mas não temos como separar das outras causas que apuramos, como diferenças de preços de petróleo, queda na demanda e outros fatores”, explicou. Ele comparou a crise vivida pela companhia a um desastre de avião. “É sempre depois de um desastre aéreo que se aperfeiçoam medidas de segurança. Isso serviu para a gente investir em mais governança.”
Bendine afirmou que a companhia deve começar a reaver o dinheiro desviado já em maio. “A Petrobras está acompanhando as investigações e dando todas as informações. Vai participar ativamente do processo de recuperação em compasso com as apurações. Já existe previsão de que alguns valores resgatados voltem para o caixa da companhia em maio”, ressaltou. Segundo ele, todo o valor resgatado será da companhia, que foi “vítima de uma situação de malfeitos”.
O presidente ressaltou que o primeiro passo da empresa no processo de recuperação foi cumprir a obrigação legal de ter um balanço crível e auditado. “O segundo desafio é, em 30 dias, mostrar o plano de negócios para os próximos cinco anos. Como vão ser a geração de caixa e o plano de desinvestimentos, além de outras soluções que precisamos detalhar”, disse, acrescentando que o resultado do primeiro trimestre de 2015 deve ser divulgado em 15 de maio.
Bendine disse ainda que aumentar preços de combustíveis não é o caminho para recuperar perdas passadas. “O valor tem que ser justo. Nosso preço hoje está com boa margem de retorno para a empresa”, assinalou. O executivo também prometeu adotar melhores práticas de governança. “Estamos fazendo o mapeamento de processos decisórios, com ajuda de auditoria externa, num processo que será permanente”, resumiu.