Após uma investigação aprofundada, a força-tarefa da Operação Lava-Jata tem mais uma certeza: as consultorias realizadas pelas empresas controladas pelo ex-deputado André Vargas não existiram. Segundo o procurador regional da República Carlos Fernando dos Santos Lima, 50 anos, não é possível crer que o político e Leon Vargas, irmão do ex-congressista, estejam habilitados para fazer esse tipo de trabalho. Ele ainda adiantou que a atuação do ex-parlamentar e do ex-tesoureiro do PT João Vaccari vai abrir uma linha de apuração específica sobre corrupção por meio de gráficas.


“Quem conhece e quem ouviu os depoimentos até agora, não acredita que nenhum dos dois, nem o André Vargas nem o Leon Vargas, tenha condições de prestar qualquer tipo de assessoria”, disse o integrante da força-tarefa da Lava-Jato, em entrevista ao Correio. “Nós não acreditamos nisso.”


A Polícia Federal e o Ministério Público sustentam que os irmãos Vargas criaram duas empresas de fachada para receberem dinheiro desviado de órgãos públicos: a LSI Solução em Serviços Empresariais Ltda., de São Paulo, e a Limiar Consultoria e Assessoria em Comunicação Ltda., de Curitiba. Parte dos recursos chegou por meio de agências de publicidade (veja quadro). Além disso, na ordem de prisão do ex-deputado, o juiz da 13ª Vara Federal, Sérgio Fernando Moro, destacou que as firmas receberam dinheiro para outras duas empresas que mantêm contratos públicos, o frigorífico JBS S/A e a concessionária Ecovias, pertencente à construtora CR Almeida.



Procurada pelo Correio, a Ecovias disse que a LSI fez serviços de “consultoria em seleção e colocação de mão de obra”. Foram pagos R$ 46.925 líquidos em 9 de fevereiro de 2012. A JBS, que já havia pago dinheiro a uma empresa envolvida no esquema em outra ocasião, não explicou a que se referiam os pagamentos mencionados por Sérgio Moro.


Mas, para Carlos Fernando, não é possível acreditar na argumentação da Ecovias. “Creio que as defesas dessas empresas devem esclarecer e pensar muito bem a respeito dos fatos e esclarecer a realidade.”
Apesar disso, o juiz Sérgio Moro foi cauteloso ao mencionar os pagamentos das firmas de Vargas à JBS e à Ecovias. “Quanto a esse ponto, necessário aprofundar as investigações, não sendo possível afirmar por ora que eram destituídos de causa lícita”, disse ele, ao decretar a prisão do ex-deputado do PT. Procurada novamente pelo Correio, a Ecovias disse que mantém o posicionamento anterior. Já a JBS não se manifestou até o fechamento desta reportagem.

Gráficas

Carlos Fernando ainda afirmou ao Correio que o Ministério Público vai abrir uma frente de apuração específica sobre gráficas. O motivo é a atuação de Vargas supostamente no mercado de comunicação. Outro é que o executivo e delator da Lava-Jato Augusto Mendonça disse que o então tesoureiro do PT, João Vaccari, mandou que ele enviasse dinheiro para a gráfica Atitude, ligada ao partido e à CUT. Foi pago R$ 1,5 milhão, valor que saiu da taxa de propina de contratos da Setal com a Petrobras.


Por enquanto não há uma apuração específica em cima da Atitude. “Mas, diante do esquema de corrupção do (André) Vargas, sabemos que as gráficas são um dos pontos mais fáceis de serem manipulados nesses esquemas de desvios de recursos”, disse Lima. “Vão ser analisadas as operações com gráficas.”
Como mostrou o Correio no domingo, o procurador entende que os pagamentos feitos por Mendonça à Atitude se somam a indícios de corrupção e já permitem a condenação de Vaccari. Para expandir essa apuração a várias gráficas, porém, o trabalho será mais difícil.


“O problema é que se contratam 100 mil panfletos e se produzem 10 mil”, exemplificou o procurador. “Como se prova que os 90 mil não foram produzidos?”, questionou. A ideia é focar em que atestou o recebimento das publicações.


A advogada de Vargas, Nicole Trauczinski, não retornou aos pedidos de esclarecimentos feitos desde sexta-feira. Assim como a Caixa e o Ministério da Saúde, a agência Borghi diz que colabora com as investigações, e seu presidente, José Borghi, nega participação em ilícitos. A IT7 não foi localizada. O petista Marcos Mazoni diz que foi indicado para a presidência do Serpro pelo ex-ministro Nelson Machado, e não por Vargas, e negou irregularidades em seu órgão. 

Esclarecimento
Em relação aos repasses efetuados pelo Ministério da Saúde, a Propeg, uma das quatro agências de publicidade que atendem a pasta, informa que não efetuou qualquer pagamento a empresas ligadas ao ex-deputado André Vargas.