O tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, denunciado pelo Ministério Público Federal por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, vai ficar em silêncio durante depoimento marcado para a próxima quinta-feira na CPI da Petrobras. Num acordo com o Partido dos Trabalhadores (PT), alegará o direito constitucional de permanecer calado e deve comunicar que responderá apenas em juízo. A estratégia do PT é não oferecer munição à oposição, que fará o segundo grande ato de protesto contra a presidente da República Dilma Rousseff, no próximo dia 12, três dias após a ida do petista ao colegiado. Os oposicionistas esperam colocar o dobro de gente na rua e, assim, reforçar o apoio para o impedimento da presidente.

O PT avaliou que, às vésperas da manifestação, a fala do tesoureiro poderia ser desastrosa para os planos de recuperação de popularidade de Dilma, que começaram a ser postos em prática. Cinco dias antes do primeiro protesto contra a presidente, o depoimento bombástico do ex-gerente de Engenharia da estatal Pedro Barusco, prestado em 10 de março, aumentou ainda mais a insatisfação contra a gestão da petista. Serviu como combustível. 

Considerado um dos principais operadores do esquema, Barusco era o braço direito de Renato Duque na diretoria de Serviços. Ele contou que o PT pode ter recebido até 200 milhões de dólares com o esquema durante 10 anos.

Inicialmente, Vaccari só deveria prestar esclarecimentos na CPI da Petrobras em 23 de abril. No entanto, a oposição conseguiu manobrar e antecipar a convocação no momento em que o deputado Antônio Imbassahy (PSDB-BA) substituía o deputado Hugo Motta (PMDB-PB) na presidência do colegiado. Houve reação do PT.

Ontem, Motta acabou confirmando o depoimento de Vaccari para o dia 9. “A decisão dele tem amparo regimental e deve ser respeitada, já que ele estava na condição de presidente no dia que anunciou. É uma praxe minha não desautorizar os demais membros componentes da mesa. Manterei o cronograma estabelecido pelo presidente em exercício, Imbassahy”, alegou.

O peemedebista disse acreditar que o tesoureiro vai contribuir com os trabalhos desenvolvidos até o momento pela CPI da Petrobras. “Acredito que Vaccari virá em uma boa hora para a CPI e terá a oportunidade de esclarecer as diversas acusações feitas, inclusive na primeira oitiva realizada por este colegiado”, afirmou.

Vaccari é apontado pelo investigadores como operador do PT no esquema bilionário de pagamento de propina oriunda de contratos firmados entre empreiteiras e a Petrobras, desvendado pela Operação Lava-Jato. Os procuradores da República indicam que o petista articulava reuniões com o ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque. A investigação revelou que o tesoureiro indicava as contas onde as doações, a título de propina, deveriam ser depositadas. Os subornos, segundo o Ministério Público Federal, eram pagos por meio de doações oficiais ao Partido dos Trabalhadores. Segundo a investigação, Vaccari seria o responsável pela manobra para “lavar” o dinheiro sujo. Foram identificadas 24 doações em 18 meses. O PT afirma que todas as doações foram legais.

As suspeitas
As investigações relacionaram a suposta entrega de dinheiro para Marice Corrêa de Lima, cunhada do tesoureiro do PT, solicitada por um executivo da empreiteira OAS com duas movimentações da contabilidade do “money delivery”, operado pelo doleiro Alberto Youssef, um dos principais operadores do esquema.

Na denúncia criminal que ofereceu contra seis executivos do Grupo OAS, o Ministério Público Federal considerou como elemento de prova o cruzamento do monitoramento telefônico do doleiro, com José Ricardo Nogueira Breghirolli, com a contabilidade informal de Youssef para indicar o pagamento de valores para Marice, em dezembro de 2013.

A estratégia escolhida por Vaccari não é nova. Vários depoentes da CPI do Cachoeira, que investigou, em 2013, as ligações criminosas da empresa Delta com políticos e outros agentes públicos, utilizaram o direito constitucional de permanecer em silêncio. Em 19 de março, Renato Duque se reservou ao direito de ficar calado na CPI da Petrobras. “Existe hora de falar e hora de calar. Esta é a hora de calar”, afirmou Duque, que seguia a orientação dada pelo advogado. Vaccari deve justificar exatamente da mesma maneira. “Não pensei que fosse tão difícil ficar calado, mas, por orientação da minha defesa, ficarei calado”, emendou Duque. Os envolvidos na Operação Lava-Jato não têm obrigação de falar à comissão, já que a Constituição não exige que os cidadãos produzam provas contra si mesmos.

Após cinco horas de depoimento, mantendo o silêncio, ele só reagiu quando os parlamentares ameaçaram convocar a mulher dele.

As acusações
João Vaccari Neto, tesoureiro do PT desde 2010, foi denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro.

Ele é apontado como operador do PT no esquema de pagamento de propina oriunda de contratos firmados entre empreiteiras e a Petrobras.

Conforme os investigadores, Vaccari articulava reuniões com o ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque para fazer o acerto das propinas.

Os subornos, segundo o Ministério Público Federal, eram pagos por meio de doações oficiais ao Partido dos Trabalhadores. Segundo a investigação, Vaccari seria o responsável pela manobra para “lavar” o dinheiro sujo.

Os procuradores da República identificaram 24 doações em 18 meses.

Vaccari é apontado como o responsável por indicar as contas onde os recursos deveriam ser depositados. Conforme o MPF, ele tinha consciência de que os pagamentos eram feitos a título de propina.