O mercado de moedas está de pernas para o ar no mundo inteiro, não só no Brasil. O sobe e desce da moeda ocorre porque o Banco Central americano ora dá sinais de que vai subir os juros, ora mostra dúvidas. A essa incerteza se somam as fragilidades da economia brasileira. Em termos reais, a moeda brasileira não está tão desvalorizada. Quando se desconta a inflação, é possível ver melhor.

Os juros americanos estão zerados desde 2008, quando teve início a crise internacional. Foi uma medida emergencial para reativar a economia. Além de juros zeros, houve estímulos monetários. Isso fez o dólar se enfraquecer. Agora, o PIB voltou a crescer, a criação de empregos está forte, e a taxa de desemprego caiu para 5,5%, depois de chegar a 10% no pior momento da crise. A expectativa de alta de juros está produzindo a alta do dólar no mundo inteiro.

- Nenhum país do mundo pode manter os juros zerados o tempo todo. Essa é uma medida de emergência. Juros baixos podem causar outros problemas, como os que provocaram a própria crise de 2008. Há um estímulo muito grande ao risco, risco de criação de bolhas - disse o economista Mário Garcia, da PUC-Rio.

O Banco Central americano retirou os estímulos e vinha dando sinais de que poderia subir os juros. Isso elevou o dólar. Esta semana, no entanto, saíram dados que voltaram a alimentar a dúvida. O temor é de redução do ritmo da recuperação. Garcia explica que juros altos fortalecem o dólar, e isso atrapalha as exportações americanas. Também aumentam o risco de deflação, já que os índices de preços por lá estão perto de zero. Foi esse receio que fez o Fed soltar um comunicado confuso esta semana, que só aumentou a volatilidade.

- Ao mesmo tempo em que retirou palavras no comunicado levantando dúvidas sobre o momento do aumento de juros, o BC americano reduziu projeções para o PIB entre 2015 e 2017 - explicou o economista-chefe e sócio do Banco Modal, Alexandre de Ázara.

Segundo Ázara, há consenso de que o ciclo de juros nos EUA é de alta. A dúvida é sobre quando começa a subir. Há quem aposte em junho; outros, em setembro; e há quem ache que só em 2016. Também há dúvidas se as altas serão contínuas ou espaçadas, e se sobem até 2%, 3% e até 4%. O Fed está espalhando incertezas e isso aumenta a oscilação no preço das moedas. Na quinta, o dólar subiu 2,58% em relação ao real, ontem caiu 2%.

O Brasil tem um problema a mais: as próprias fragilidades econômicas. Márcio Garcia faz a lista das fraquezas: alto déficit em conta-corrente, déficit primário, dívida bruta em alta, baixo crescimento do PIB, inflação elevada e juros altos. Além disso, agora há o componente político. A baixa popularidade da presidente Dilma levanta dúvidas sobre se ela terá capacidade de convencer sua base política a aprovar as correções de rumo. O BC, no último ano, vendeu dólar no futuro, através das chamadas operações de swap cambial, para evitar que a moeda americana subisse muito.

- O BC deveria ter acabado com o programa de swaps antes, mas quis segurar o câmbio em ano eleitoral. Deveria ter começado a subir os juros antes, mas não fez. E o governo deveria ter diminuído os estímulos antes. São vários ajustes ao mesmo tempo sendo feitos. Isso estimula a volatilidade - explicou Márcio Garcia.

Apesar de ter sido uma das moedas que mais perdeu valor em relação ao dólar nos últimos meses, a taxa real do dólar é muito menor, hoje, do que quando superou R$ 3 em 2002. Ou seja, descontada a inflação no período. Veja no gráfico abaixo a série de câmbio real.