Título: Sucesso de fôlego curto
Autor: Hessel, Rosana
Fonte: Correio Braziliense, 29/07/2011, Economia, p. 9

Para especialistas, medidas tomadas pelo governo não sustentam dólar por muito tempo

As medidas anunciadas anteontem pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, com o objetivo de conter o derretimento do dólar, surtiram efeito, mas somente a curto prazo, na avaliação de especialistas. A moeda norte-americana, depois de atingir a menor cotação em 12 anos na última segunda-feira, fechou o pregão de ontem com alta de 0,64%, a R$ 1,569 para venda. Foi a segunda valorização consecutiva.

"O efeito dessas medidas é temporário. O impacto agora é positivo, mas não será isso que irá fazer o dólar continuar subindo", comentou o economista Frederico Turolla, da consultoria Pezco. "O governo ainda não fez o que precisa ser feito. O modelo atual é insustentável, principalmente devido à explosão fiscal e de crédito, apesar dos dados positivos divulgados anteontem pelo Banco Central", completou Turolla.

Ele demonstrou preocupação com que classificou de piora na avaliação do país pelos investidores externos. "Desde abril, eles veem o país com outros olhos no exterior. A confiabilidade das contas públicas tem piorado e o Brasil já não é mais o preferido dos investidores estrangeiros. Eles já procuram outros mercados, embora o fluxo de capital ainda não tenha mudado", alertou.

O economista-sênior para a América Latina da Economist Intelligence Unit (EIU), Robert Wood, também avaliou as medidas com cautela. Ele aposta que a taxa básica de juros (Selic) terá mais um aumento de 0,25 ponto em agosto, o que fará o real continuar subindo. "Essas medidas começam a distorcer as operações de mercado. Embora tenham o objetivo de evitar a ação de especuladores, elas devem complicar os negócios de empresas exportadoras que fazem operações de seguro (hedge) para se proteger das variações cambiais", disse.

Incerteza Na quarta-feira, o governo impôs uma taxa sobre as operações especulativas no mercado futuro (derivativos) superiores a US$ 10 milhões. A princípio, o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) será de 1%, mas o governo poderá aumentar essa alíquota para até 25%.

Os mercados oscilaram ontem. Enquanto a Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa) subia 0,72%, a de Nova York (Índice Dow Jones) recuava 0,64%. Um dos motivos dessa incerteza é a proximidade do dia (2 de agosto) em que o governo dos Estados Unidos poderá suspender pagamentos, se o Congresso norte-americano não aprovar o aumento do teto do endividamento da maior economia global, hoje em R$ 14,3 trilhões. O Brasil é o quarto maior credor do Tesouro dos EUA, carregando um total de US$ 187 bilhões em títulos da dívida norte-americana. O volume corresponde a mais da metade das reservas brasileiras, que somam US$ 340 bilhões.

"Ainda não se sabe exatamente qual seriam as consequências de um calote dos Estados Unidos. O Brasil poderá sair favorecido se a percepção de risco do país diminuir, mas também pode ser prejudicado se ocorrer o contrário. A avaliação dos investidores sobre o Brasil tem piorado nos últimos meses, mas ainda não afetou o fluxo de capitais", comentou Turolla.

Embora alguns analistas digam que as medidas podem ter efeito de alta nos preços ao consumidor, o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, acha difícil que isso ocorra neste momento.

Big Mac mais caro O índice Big Mac, calculado pela revista The Economist e que compara o preço do famoso sanduíche em vários países, aponta que o real é a moeda mais cara do planeta, com valorização de 149% em relação ao dólar. Reformulado, o indicador passou a considerar o Produto Interno Bruto (PIB) per capita dos países. No critério antigo, no entanto, o Brasil tem uma sobrevalorização de 52% e fica em quarto lugar, atrás de Noruega, Suíça e Suécia. Aqui, o Big Mac custa US$ 6,16. Nos Estados Unidos, US$ 4,07.