Após ter sido alvo de um panelaço em pelo menos 13 capitais na noite de domingo por causa de seu pronunciamento na TV, a presidente Dilma ontem defendeu o direito de manifestação, mas afirmou que não pode haver um “terceiro turno” das eleições. E afirmou que é preciso aceitar a regra do jogo democrático. “Há que caracterizar razões para o impeachment”, disse. Mais cedo, o ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil) condenou o que também chamou de terceiro turno. O PT acusou a oposição de financiar o panelaço.

Já o expresidente Fernando Henrique afirmou que “não adianta nada tirar a presidente”. ­BRASÍLIA E SÃO PAULO­ Após a onda de manifestações ocorridas durante o pronunciamento da presidente Dilma Rousseff pelo Dia Internacional da Mulher, domingo à noite, o PT, ministros e a própria presidente saíram ontem a público para afirmar que, embora manifestações façam parte da democracia, não deve haver “terceiro turno” das eleições. Pela primeira vez, Dilma comentou a proposta de impeachment, ao afirmar que esse tema não pode ser tratado como uma possibilidade de mudança do resultado eleitoral. No panelaço realizado domingo, em várias capitais, os manifestantes gritaram “fora Dilma”. — Eu acho que é outra questão, é questão do conteúdo. Eu acho que há que caracterizar razões para o impeachment e não o terceiro turno das eleições. O que não é possível no Brasil é a gente não aceitar a regra do jogo democrático. A eleição acabou, houve primeiro e segundo turnos. Terceiro turno das eleições não pode ocorrer, a não ser que você queira uma ruptura democrática. Acredito que a sociedade brasileira não aceitará rupturas democráticas e acho que amadurecemos suficiente para isso — argumentou Dilma.

Hoje, Dilma deve almoçar com o ex­presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Paulo, após participar da abertura da feira da indústria da construção. O eixo da conversa deve ser a crescente impopularidade do governo. Indagada ontem se as manifestações seriam legítimas, a presidente reconheceu que “manifestações pacíficas são da regra democrática”: — Acredito que a manifestação quem convocar convoque do jeito que quiser. Ninguém controla quem convoca. A manifestação terá as características que tiverem seus convocadores. Ela em si não representa nem a legalidade nem a legitimidade de pedidos que rompem com a democracia. MERCADANTE: PANELAÇO FOI TERCEIRO TURNO O tom da presidente foi mais ameno que o de seu principal auxiliar, o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e do PT.

O ministro, em coletiva de imprensa, disse que as manifestações foram em locais onde Dilma perdeu as eleições e classificou o que houve domingo como uma espécie de “terceiro turno”: — Faço parte de uma geração que só conhecia a democracia pelo livro de História. Meus filhos e as minhas netas, espero que elas também só venham a conhecer golpe e regime de exceção pelos livros de História, que possam viver plenamente a democracia. No Brasil, só tem dois turnos, não tem terceiro turno. As eleições acabam quando alguém vence. Nós vencemos as eleições pela quarta vez. Isso tem que ser reconhecido.

Reconhecemos plenamente o direito de manifestação. O que preocupa é que foi uma eleição que teve momentos de radicalização, e precisamos construir uma cultura de tolerância, de diálogo, de respeito — disse Mercadante. Dirigentes do PT saíram às pressas, ainda no domingo, para amenizar o impacto do panelaço. No site do partido, os dirigentes Alberto Cantalice e José Américo Dias, da executiva pestista, disseram que o protesto havia sido “financiado” pela oposição e “fracassou em seus objetivos”. “Tem circulado clipes eletrônicos sofisticados nas redes, o que indica a presença e o financiamento de partidos de oposição a essa mobilização. Mas foi um movimento restrito que não se ampliou como queriam seus organizadores”, disse Dias ao site petista.

Nos bastidores, porém, o clima era de preocupação e surpresa. Na avaliação de petistas, o panelaço pode levar ao crescimento dos protestos contra a presidente previstos para o próximo domingo. Também tem­se avaliado que o panelaço pode ganhar a adesão das classes mais pobres, onde o governo petista é mais forte. Ontem, Lula se reuniu com o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Miguel Rossetto, e se encontrou com dirigentes de organizações e centrais sindicais engajadas na reforma política. AÉCIO: “PT TENTA TAPAR O SOL COM A PENEIRA” O ex­presidente Fernando Henrique Cardoso voltou a se colocar contra um eventual pedido de impeachment de Dilma. Durante evento do instituto que leva seu nome, ontem, o tucano afirmou que “não adianta nada tirar a presidente”, segundo o jornal “Valor”. No fim de fevereiro, FH já havia declarado que o PSDB não deveria apoiar a tese do impeachment, em reunião com a cúpula do PSDB. No mesmo evento, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), ex­candidato a vice na chapa do tucano Aécio Neves, também participou do evento e disse ser contra o impeachment. — Não quero que ela saia, quero sangrar a Dilma, não quero que o Brasil seja presidido pelo (vicepresidente, do PMDB) Michel Temer (...) Vejo essa palavra (impeachment) como expressão de rechaço à ordem atual, sem entrar no mérito — disse o senador, segundo a publicação. Mais tarde, ao GLOBO, o senador disse que o panelaço seria apenas um “aperitivo” para as mobilizações do próximo domingo. — O panelaço foi uma resposta ao longo insulto contra a inteligência dos brasileiros, que foi aquele pronunciamento de 16 minutos da presidente Dilma. Foi apenas um aperitivo do que vai acontecer dia 15. Foi um dos pronunciamentos mais insensatos e patéticos que já vi na minha vida — disse Aloysio. O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), reagiu ontem às acusações da presidente de que a oposição quer um terceiro turno. Em nota e nas redes sociais, Aécio disse que o PT tenta passar para a oposição a responsabilidade pelas manifestações críticas ao governo, que são feitas por setores da sociedade que se sentem “enganados”. “O PT continua tentando tapar o sol com a peneira ao tentar responsabilizar a oposição pelas repetidas, e cada vez mais frequentes, manifestações críticas ao governo. As manifestações que ocorrem nas redes sociais, nos panelaços e nas ruas não defendem um terceiro turno. São manifestações espontâneas e democráticas Queremos um país em que todos tenham o direito de expressar sua opinião”, disse Aécio.

O DEM, no entanto, adotou tom mais agressivo. O líder do partido no Senado, Ronaldo Caiado (GO), criticou, em nota, o PSDB e disse que exigirá a apuração dos fatos. Afirmou que, se esses fatos forem comprovados, cobrará o julgamento das autoridades envolvidas por crime de responsabilidade. “Diferentemente do PSDB, vou exigir a apuração dos fatos e os desdobramentos necessários para que possamos esclarecer a toda a sociedade brasileira a situação de total desgoverno e corrupção (...) Sou 100% contrário a essa tese proposta pelo PSDB”, disse. 

____________________________________________________________________________________________________________________

Ministro diz que governo agora aceita negociar reajuste na tabela do IR 

­BRASÍLIA­

Na tentativa de evitar a derrubada do veto presidencial, o ministro Pepe Vargas (Relações Institucionais) anunciou, ontem à noite, que o governo está disposto a negociar o reajuste da tabela do Imposto de Renda ( IR). Após reunião com a presidente Dilma Rousseff, líderes da base aliada no Senado afirmaram que ela deve discutir o assunto hoje com o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB­AL). Na tentativa de tentar recompor a relação com o governo, o ministro da Defesa, Jaques Wagner, foi domingo à casa de Renan. — Vai se construir uma proposta alternativa para o Imposto de Renda — afirmou Vargas, após reunião de Dilma com os líderes no Senado. Vargas não detalhou a proposta, afirmando que ela será negociada hoje com Renan, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB­RJ), e líderes partidários. O Congresso aprovou um reajuste de 6,5% na tabela do Imposto de Renda, o que foi vetado pela presidente.

A governo queria 4,5%. Os líderes no Senado alertaram Dilma que a tendência é que o Congresso derrube amanhã o veto presidencial. Eles sugeriram que o governo acene com uma correção de 5% ou 5,5%, para evitar a derrota. No encontro, Dilma rebateu a acusação de Renan e de Cunha, de que o governo teria trabalhado para incluir seus nomes na investigação do esquema de corrupção na Petrobras. — Tenho lido que tenho o poder de botar e tirar da lista (do procurador­geral da República).

Eu botei ( nomes)? — questionou Dilma, segundo participantes da reunião. Para tentar atravessar a atual crise, a presidente foi aconselhada nos últimos dias a recompor sua base, fazendo, já neste início de segundo mandato, mudanças no Ministério. Integrantes da articulação política, petistas ligados ao expresidente Lula e o PMDB avaliam que é preciso fortalecer o governo e reequilibrar os espaços dos partidos aliados. À presidente chegaram as ideias de substituir Pepe Vargas e dar mais espaço aos peemedebistas.

A principal alternativa seria retirar o PP do Ministério da Integração Nacional, já que o partido é o maior afetado pelas investigações da Operação Lava­Jato, com 31 políticos sob inquérito. Peemedebistas como o expresidente da Câmara Henrique Eduardo Alves (RN) e o senador Eunício Oliveira (CE) já se movimentam para tentar comandar a pasta. Até Renan gostaria de entregar o ministério a um aliado. DILMA E TEMER DISCUTEM CRISE A opinião geral é que o Ministério precisa ter mais peso político e que deve haver uma redistribuição do Orçamento das pastas. Para a Secretaria de Relações Institucionais, integrantes do governo cogitam os nomes de Henrique Alves e do ministro da Aviação Civil, Eliseu Padilha, ambos do PMDB. Integrantes do partido, no entanto, não aceitam a proposta. Após ser posto de lado pela presidente e pelos ministros da articulação política, entre eles Miguel Rossetto (Secretaria­Geral), Aloizio Mercadante (Casa Civil), e Pepe Vargas, o vice­presidente Michel Temer foi chamado por Dilma a participar de uma reunião na manhã de ontem, em seu gabinete.

Trataram dos protestos de domingo, durante o pronunciamento dela. Temer voltou a dizer que o governo tem que se abrir a opiniões dos partidos da sua coalização e reforçou a necessidade de criação de uma nova instância, um “conselho institucional”. Nos bastidores, governistas cogitaram oferecer a Temer um ministério, o que não prosperou porque ele não aceitaria.