Em depoimento, Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, disse que no Brasil as doações para campanhas são “uma grande falácia”. Segundo ele, “na verdade são verdadeiros empréstimos a serem cobrados posteriormente a juros altos”, quando os políticos são eleitos. -BRASÍLIA- Em seu primeiro depoimento da delação premiada, em 29 de agosto de 2014, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa afirmou que, no Brasil, as doações de dinheiro para campanha política são, na verdade,empréstimos feitos pelas empresas doadoras e cobrados a juros altos mais tarde, quando o político é eleito.

A declaração de Costa foi feita na Polícia Federal do Paraná, na presença de dois delegados, um procurador e dois advogados do delator.

“É uma grande falácia afirmar que existe doação de campanha no Brasil, quando na verdade são verdadeiros empréstimos a serem cobrados posteriormente a juros altos dos beneficiários das contribuições quando no exercício dos cargos”, disse Costa.

O ex-diretor ainda acrescentou que os políticos registram na Justiça Eleitoral apenas um terço dos recursos que realmente gastam para se eleger:

“Nenhum candidato no Brasil se elege apenas com o caixa oficial de doações, e os valores declarados de custos de campanha correspondem, em média, a apenas um terço do montante efetivamente gasto, sendo o restante oriundo de recursos ilícitos ou não declarados”.

INDICAÇÃO A DIRETOR, SÓ COM PROPINA

O delator disse ainda que sua indicação para o cargo de diretor da Petrobras se deu em troca de repasses de recursos para seus padrinhos políticos. Costa era afilhado do PP na estatal.

“O apadrinhamento político do depoente se deu através do Partido Progressista, na época comandado por José Janene (ex-líder do partido, já falecido)”, disse Costa em sua delação premiada. “Uma vez ocupando o cargo de diretor por indicação política, o grupo político sempre demandará algo em troca. Toda indicação política no país para os cargos de diretoria pressupõe que o indicado propicie facilidades ao grupo político que o indicou, realizando o desvio de recursos de obras e contratos firmados pelas empresas e órgãos aos quais esteja vinculado para benefício deste mesmo grupo político”.

Costa foi diretor entre 2004 a 2012. Ele afirmou também que, na empresa, para alcançar outros cargos, só mesmo com apoio político. E fez uma comparação com as Forças Armadas. “Por mais competente que seja o oficial, ele não ascende ao cargo de general sem a indicação pessoal”.

O delator revelou também como funcionava a contratação de obras na Petrobras. Normalmente, o lucro de uma empreiteira varia de 10% a 20% dependendo do risco do negócio. E disse que, no valor final, é embutido o percentual da corrupção. “Tomemos por exemplo que (o lucro) chegue a 15%. Esse percentual recebe um acréscimo, de3% para o repasse ao grupo político responsável pela diretoria”.

Ao falar sobre Alberto Youssef, que funcionava como seu operador nos repasses da propina, Costa afirmou: “Os valores da propina do PP ficavam concentrados em um caixa único do Alberto Youssef, que funcionava como um verdadeiro banco da propina”.

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Na lista de Janot, deputado federal chora e diz que ‘não há dúvida de que PP acabou’ 

­PORTO ALEGRE E SÃO PAULO­

O deputado Jerônimo Goergen (PP­RS), um dos que vão responder a inquérito sob acusação de ter recebido propina do esquema da Petrobras, chorou ontem ao dar entrevista no diretório estadual do partido, em Porto Alegre. Ele disse que, na época em que a mesada teria sido paga, ainda estava na Assembleia Legislativa gaúcha. Goergen pediu licença do mandato e disse que vai oferecer a quebra de seu sigilo bancário e telefônico. — A partir de agora, provar minha inocência é o desafio da minha vida — disse Goergen, que acrescentou: — Não há dúvida de que o PP acabou. Ao todo, cinco deputados federais do PP gaúcho e um exdeputado estão na lista do procurador­geral Rodrigo Janot.

O presidente do PP no Rio Grande do Sul, Celso Bernardi, reconheceu que a imagem do PP gaúcho “sofreu um estrago” com o episódio, mas disse que o partido “não pode ser culpado por erros individuais”. Bernardi também afirmou que o partido “não será guardião” de malfeitos. E deu a entender que cada parlamentar terá de cuidar individualmente de sua defesa: — Se infelizmente perdermos alguém, é preferível prejuízo político a danos na nossa imagem de ética e seriedade. Mas queremos que a mesma régua moral que estamos usando para nossos companheiros seja usada com os adversários do PP.

O ex­ deputado Wilson Covatti, outro na lista de Janot, disse que o PP está sendo vítima de “conspiração”: — O PP tem que agir em conjunto para atacar essa conspiração contra nós. Em São Paulo, o deputado Paulo Maluf (PP­SP), condenado por improbidade administrativa e procurado internacionalmente pela Interpol por apropriação indébita de dinheiro, defendeu que seu partido sofra uma reformulação moral. Ele acha que o presidente do partido, senador Ciro Nogueira (PI), deve deixar o cargo na eleição marcada para abril:— Ciro Nogueira não tem condição moral para ser reeleito presidente do PP. Ele tem que ser afastado da direção. Eu não quero o cargo. Já fui presidente por 20 anos. Carreguei o partido nas costas por 48 anos. Temos bons nomes para o cargo. 

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Empreiteiras custearam defesa de ex-deputados no mensalão, diz Youssef

BRASÍLIA

Em depoimento da delação, o doleiro Alberto Youssef disse que empreiteiras acusadas de desviar dinheiro da Petrobras fizeram pagamentos mensais de até R$ 70 mil a advogado dos ex-deputados José Janene (PP-PR) e Pedro Corrêa (PP-PE) durante o processo do mensalão.

Os pagamentos foram intermediados pelo próprio Youssef. A revelação do doleiro indica que investigados na Lava-Jato usaram um esquema de corrupção para custear suas defesas em outro caso de corrupção.

O doleiro disse que "fez vários pagamentos em dinheiro vivo, proveniente das empreiteiras, para pagar honorários que o advogado Ferrão, cobrava tanto do Partido Progressista quanto de José Janene e Pedro Corrêa".

Youssef disse ainda que os pagamentos eram feitos no escritório do advogado, em Brasília. "Eram entre 40 mil e 70 mil reais por mês", afirmou ao dar detalhes sobre o envolvimento de parlamentares.

Pelas investigações da Lava-Jato, Youssef era um dos operadores do esquema. As empreiteiras usavam o esquema do doleiro para fazer o dinheiro chegar a políticos. Procurado pelo GLOBO, Ferrão confirmou os pagamentos mencionados por Youssef, mas disse que não conhece o doleiro.

- Quem me pagava era o PP. Se o dinheiro vinha dele (Youssef), não posso saber.