A Operação Lava-Jato não pode servir de pretexto para, mais uma vez, os deputados do Congresso Nacional e, posteriormente, os senadores não votarem nos próximos dias a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte. Depois de dois anos de inúmeras reuniões com todos os envolvidos — parlamentares, clubes, CBF, Bom Senso, treinadores, sindicato de jogadores e o governo — não se pode adiar a ida a plenário do projeto.

O governo (leia-se Casa Civil, leia-se ministro Aloizio Mercadante) continua usando a tática de prometer a edição de uma medida provisória para travar a votação, o que já foi feito com sucesso no ano passado. Na época, o pretexto foram as eleições e, assim, o assunto foi empurrado para 2015.

A estratégia da Casa Civil para não haver votação naquele momento foi simples: com a reeleição da presidente Dilma, o ministro Aldo Rebelo seria tirado do Esporte (o que aconteceu) e seria posto no seu lugar um membro do PT de São Paulo (Edinho Silva, tesoureiro da campanha da presidente). Os louros de ter reformulado e moralizado o futebol seriam usados na reconstrução do destroçado partido em São Paulo. Esqueceram de combinar com os russos, e o cargo foi para o PRB.

Jogaram-se dois anos de negociações na lata de lixo e começou-se do zero. Não é à toa que, neste recomeço, agora em janeiro, o mesmo Edinho Silva sentou ao lado do ministro George Hilton nas conversas, como um tutor, para formular a tal MP.

Agora, é a hora de os deputados darem um basta nesse jogo de empurra, que está sacrificando, principalmente, os clubes brasileiros, a base de qualquer reformulação do nosso futebol. O insuspeito técnico Paulo Autuori, como representante do Bom Senso em encontro na Casa Civil, foi bem claro: “Só existe futebol forte com clubes fortes”.

O projeto (tão criticado e tão pouco lido) que tem como relator o deputado Otávio Leite não é perfeito, mas resulta de dois anos de negociações, das quais participei como secretário de Futebol do Ministério do Esporte, de fevereiro de 2013 até dezembro passado. Ele pode e deve ser aprimorado no plenário. Nele estão itens fundamentais, como o fim do atraso de salários, o fim dos déficits operacionais dos clubes no prazo de cinco anos, responsabilidade pessoal dos dirigentes, necessidade de apresentar Certidão Negativa de Débito para disputar as competições, entre outras.

As contrapartidas ao refinanciamento das dívidas estão lá. O que não está, e precisa estar, é a criação do Comitê de Acompanhamento, formado por cinco membros, para fiscalizar a aplicação ou não das punições. Esse comitê foi um consenso entre clubes e Bom Senso, antes das esdrúxulas ideias de a fiscalização ficar a cargo do governo, através do Conselho Nacional de Desporte ou de uma Agência Nacional de Esporte, que nada mais seria do que a estatização do futebol — com aquele mesmo Edinho Silva como presidente?

O futebol brasileiro não pode esperar mais promessas mirabolantes. Deputados, mãos à obra.