Título: Um país horrorizado
Autor: Tranches, Renata; Sabadini, Tatiana
Fonte: Correio Braziliense, 23/07/2011, Mundo, p. 22

ATENTADOS NA NORUEGA

Carro-bomba explode no centro de Oslo, destrói prédios do governo, deixa sete mortos e espalha o caos. Horas depois, atirador mata nove em acampamento de jovens. Polícia detém homem de 32 anos

Conhecida como o país do Prêmio Nobel da Paz, a Noruega foi tomada ontem pela brutalidade, com dois ataques que deixaram pelo menos 16 mortos, vários feridos e o mundo em alerta. Foi o pior ato de violência na nação nórdica desde a Segunda Guerra Mundial. O primeiro atentado ocorreu por volta das 15h30 (10h30 em Brasília), quando um carro-bomba foi detonado ao lado do prédio onde fica o gabinete do primeiro-ministro, Jens Stoltenberg. A explosão criou um cenário de destruição no coração da capital, Oslo, provocando a morte de sete pessoas. O premiê escapou ileso. Minutos depois, um atirador disfarçado de policial atacou um acampamento de jovens do Partido Trabalhista, na Ilha Utoeya, na periferia da cidade, matando mais nove pessoas. Os atos chocaram o mundo, e líderes de vários lugares manifestaram apoio e consternação (leia na página 23).

Em pronunciamento transmitido pela TV, Stoltenberg declarou que o país foi ¿sacudido pelo mal, que nos atingiu brutalmente¿. ¿Somos uma pequena e orgulhosa nação. Ninguém vai nos calar com bombas ou tiros. Ninguém nunca irá nos ameaçar ou nos fazer sentir medo por sermos noruegueses¿, declarou Stoltenberg.

Ao longo do dia, informações desencontradas sobre a autoria dos atentados dominavam os noticiários. Um analista de terrorismo do centro de estudos norte-americanos CNA Will McCants postou em fóruns islâmicos da internet que o ataque teria sido uma resposta do grupo extremista Ansar Al-Jihad Al-Alami (¿Ajudantes da Jihad Global¿, em árabe) à presença norueguesa na Guerra do Afeganistão. Mas a informação foi desmentida pelo militante Abu Sulayman Al-Nasir, que negou que sua organização tenha reivindicado os atos de violência.

À tarde, foi anunciada a prisão de um norueguês de 32 anos suspeito dos dois atentados. Gordon Corera, especialista em segurança da emissora britânica BBC, alertou que o foco inicial ligava os ataques à Al-Qaeda. No entanto, ao longo do dia, a hipótese de extremismo doméstico ganhou força. Corera acredita que a escolha dos locais para alvo ¿ o prédio e o encontro de jovens do partido do governo ¿ sugere a possibilidade de se tratar de um tema da política interna, talvez até de extrema-direita, e não de uma questão de terrorismo internacional.

Prédios desfigurados A força da explosão foi tanta que prédios do governo localizados na região foram desfigurados. As ruas ficaram cobertas por pedaços de vidros, que eram desviados por membros das equipes de socorro, na corrida para atender a todos os feridos. A sossegada e pacífica Oslo, de 500 mil habitantes, foi tomada por cenas de desolação. A explosão ecoou a vários quilômetros e quebrou as janelas do gabinete do premiê. Na região, estão também escritórios e sedes de vários veículos de comunicação e de outros ministérios, também avariados pela detonação. Logo após o ataque, a polícia isolou vários quarteirões da região. Jornais e redes de tevê ponderaram que a tragédia poderia ter sido maior, uma vez que no momento do ataque muitas pessoas já tinham deixado o trabalho.

Em entrevista ao Correio, noruegueses se mostraram assustados e surpresos. Svenn Richard Andersen, funcionário do Comitê de Defesa do Consumidor, disse que estava a 2km da explosão, mas a ouviu e sentiu um forte estrondo. ¿Foi muito mais intenso que o mais forte dos trovões¿, contou. Em um primeiro momento, ele pensou se tratar de uma explosão no prédio da esquina, mas quando ligou a televisão tomou conhecimento da tragédia. ¿Estou preocupado porque tenho um amigo que trabalha no gabinete do primeiro-ministro e até agora (ontem à tarde) não consegui falar com ele¿, ponderou. Para o norueguês, algumas coisas devem mudar em seu país a partir de agora. Uma das alterações deverá ser no fato de policiais poderem andar armados pelas ruas, o que hoje não é permitido. ¿Com um evento significativo como esse, autoridades passarão a debater e a argumentar que há um motivo para temermos e, por tanto, razão para estarem armados¿, comentou Andersen.

Para o intérprete norueguês Pal Endresen, os atentados foram uma surpresa tanto para a população quanto para o governo. ¿Foi a maior catástrofe na Noruega desde a Segunda Guerra Mundial e vai marcar o país para sempre. Os sistemas de segurança devem sofrer uma mudança¿, afirmou o morador de Oslo.