Se há exército de Stédile, é porque o PT fracassou em 12 anos de governo em uma de suas principais promessas: fazer a reforma agrária e assentar os sem-terra. O Brasil está parecendo a Venezuela neste fim de semana. Lá, há momentos em que tem dia de manifestação a favor, dia de passeata contra, e líderes governistas organizaram as milícias bolivarianas contra opositores.
O governo precisa demonstrar a serenidade com que democratas enfrentam ondas de protestos quando nada está indo bem. Há uma lista infindável de queixas. O desconforto econômico está aumentando por causa da inflação, que no mandato passado se tentou reprimir em vez de se combater as causas. O escândalo de corrupção da Petrobras tem proporções atlânticas e seus desdobramentos políticos e econômicos ainda não estão completamente entendidos. A campanha eleitoral deixou sequelas, não porque a oposição perdeu e quer o terceiro turno, mas porque o marketing foi errado. “A esperteza quando é demais come o dono” é uma velha frase mineira, atribuída a Tancredo Neves, e que serve para mostrar o efeito rebote das mentiras e ataques maldosos a adversários na propaganda que levou a presidente ao segundo mandato.
Os descontentes podem protestar em sossego e segurança, e quaisquer pedidos de interrupção de mandato fora da Constituição são apenas excessos. Protestos têm dimensões imprevisíveis, não se sabe de antemão se serão grandes ou não, mas, quando os ânimos se exaltam, cabe ao governo serená-los, porque manter a ordem e garantir a liberdade é dever de quem está no poder numa democracia.
Por isso, convocar militantes para demonstrar força e insinuar que há um exército outro, que não o único estabelecido pela Constituição, não é a melhor forma de reagir neste momento. A menos que se queira mesmo seguir o modelo da Venezuela, que está com 70% de inflação, prisão de opositores eleitos, e Congresso domesticado entregando ao governante o direito de anular o Legislativo.
Manifestação de desagrado é da vida da democracia. O ex-presidente Fernando Henrique enfrentou o PT com seu “fora FHC”, que propunha encerrar o segundo mandato que começara em crise. Em 1999, a desvalorização descontrolada do dólar, após a mudança da âncora cambial, aumentou a inflação e as incertezas. Isso foi entendido como quebra da promessa da campanha de manter a estabilidade do real. O PT aproveitou o momento, aprovou em reunião a campanha parar tirar o presidente e saiu às ruas. FH não convocou exército paralelo e nem o teria. Nem chamou manifestantes para aplaudi-lo.
João Pedro Stédile e seu movimento recebem muitos recursos públicos. As centrais sindicais de trabalhadores também são em parte financiadas com dinheiro coletivo recolhido através do imposto sindical. A bandeira de defesa da Petrobras, que os governistas têm envergado, demonstra um divórcio com a realidade. Afinal, quem defende a Petrobras hoje? São os investigadores da Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça. Só a descoberta do roubo, em todas as suas dimensões, permitirá o fortalecimento da empresa com a adoção de um novo modus operandi, para repetir a expressão usada por Pedro Barusco na CPI da Petrobras.
Quem enfraqueceu a Petrobras ao participar do saque à empresa ou ao se omitir diante dos indícios de irregularidades? Quem ameaçou a empresa dando ordens de investimentos sem retorno ou impedindo que ela fosse devidamente remunerada na venda dos seus produtos? Quem aceitou com aditivos o aumento extravagante dos custos de suas obras? As manifestações governistas que usam a imagem da Petrobras precisam responder a essas perguntas se querem mesmo defender a empresa.
Na Venezuela, o governo arregimentou, treinou e armou milícias como forças paralelas para ameaça física aos adversários do regime. Aqui, felizmente, não houve isso. Mas a simples referência por Lula ao “exército de Stédile” mostra a falta de noção da responsabilidade que tem como ex-presidente. Não surpreende, vindo de quem vem. A única atitude acertada do governo é respeito às manifestações e garantia do direito democrático dos brasileiros de demonstrar o que sentem e pensam neste começo difícil do ano de 2015.