O Banco Central (BC) abandonou de vez a ideia de recuperação rápida da economia brasileira e projeta que tenha havido recessão em 2014 e que o mesmo ocorrerá este ano. No relatório trimestral de inflação, divulgado ontem, a autarquia previu retração da atividade de 0,1% no ano passado - o dado oficial será conhecido hoje - e de 0,5% em 2015. Entre as causas do encolhimento da economia, estão a redução de investimentos da Petrobras e a crise hídrica em São Paulo.

O BC também revisou a projeção para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA, a inflação oficial) de 6% para 7,9% em 2015, que, pela primeira vez, ficou acima do teto da meta de 6,5%. No entanto, melhorou a expectativa para o ano que vem, que caiu de 5% para 4,9%, e indicou que os juros devem continuar a subir.

inflação concentrada no 1º tri

"(...) O Copom (Comitê de Política Monetária) avalia que o cenário de convergência da inflação para 4,5% em 2016 tem se fortalecido. Para o Comitê, contudo, os avanços alcançados no combate à inflação - a exemplo de sinais benignos vindos de indicadores de expectativas de médio e longo prazo - ainda não se mostram suficientes", afirmou o BC em relatório.

- A principal mensagem desse relatório é que a política monetária continuará vigilante para assegurar a convergência da inflação à meta de 4,5% ao longo de 2016 - afirmou o diretor de Política Econômica do BC, Luiz Awazu. - O objetivo é circunscrever esse impacto (aumento das previsões de inflação) a 2015 e conter os efeitos de segunda ordem por meio da política monetária.

Para o diretor, a política de juros tem que impedir que o aumento da inflação concentrado no primeiro trimestre tenha efeitos sobre as taxas dos próximos três anos. Ele deu cinco motivos para que isso ocorra: os aumentos dos juros feitos até agora e a política monetária que continuará "vigilante", o alinhamento das políticas econômicas (com o Ministério da Fazenda), o aumento das tarifas públicas concentrados nos três primeiros meses, o mercado de trabalho menos tenso (com mais desemprego), e o repasse moderado da altado dólar para os preços internos por causa da recessão e também dos preços das Commodities que estão em queda.

Durante a entrevista, Awazu fez questão de repetir que não considera os sinais de convergência para a inflação suficientes, indicando que o BC continuará a subir os juros básicos. No mercado financeiro, ficou a dúvida porque a autoridade monetária tirou o termo "especialmente" vigilante do documento.

Para o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, o relatório deixou a porta aberta para o Copom começar a reduzir o ritmo de alta dos juros daqui para frente. Por isso, ele aposta em apenas mais uma elevação de 0,25 ponto percentual na reunião de abril. No entanto, a fala de Awazu chamou a atenção:

- Ele ter repetido que os sinais são insuficientes abre espaço para manter o ritmo de alta se o Copom achar necessário.

Awazu rebateu as críticas de que o BC falhou no passado e disse que os diretores trabalham 24 horas por dia, sete dias por semana e 365 dias por ano para conter a inflação. E disse que o Copom está integralmente dedicado a levar a inflação para 4,5% ao longo de 2016.

- Não pode haver dúvida nenhuma da sociedade em relação a isso. Nós trabalhamos 200% para atingir esse objetivo.

O relatório divulgado ontem pelo BC mostra que as estimativas da autarquia estão mais próximas da realidade. Os analistas do mercado preveem retração de 0,83% no PIB este ano e esperam que o IPCA fique em 8,12%.