BRASÍLIA
Um dia após os protestos que levaram ao menos dois milhões de pessoas às ruas do país, segundo estimativas oficiais, a presidente Dilma Rousseff saiu ontem da defensiva, reconheceu erros do governo, pregou humildade e se declarou aberta ao diálogo com todos os setores da sociedade.
A mudança de postura da presidente revelou-se desde cedo, quando chamou uma reunião de avaliação das manifestações, no Palácio do Planalto, ampliando, finalmente sua coordenação política com mais três partidos da base: PMDB, PSD e PCdoB. Dilma fez referência aos protestos no discurso de sanção do Código de Processo Civil, à tarde, e, em seguida, deu entrevista coletiva, na qual pediu trégua às divergências políticas, reconheceu que talvez tenha cometido "algum erro de dosagem" nas medidas econômicas e defendeu o diálogo com regras, sem fomento à instabilidade política. A presidente fechou o dia com uma reunião no Planalto com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o presidente do PT, Rui Falcão.
Pedido de apoio ao ajuste fiscal
Partiu dos peemedebistas a constatação de que faltava humildade ao governo, crítica constante da oposição. Dilma ouviu e passou a adotar a palavra como lema. Mergulhada numa crise política e econômica, a presidente pediu na reunião da coordenação o apoio integral às medidas de ajuste fiscal. Só elas, disse Dilma aos aliados, poderão fazer o governo reagir. Aos ministros, delegou a função de conversar com empresários e movimentos sociais e sindicais para pedir que cedam e apoiem o pacote. O governo vê nas medidas do ministro Joaquim Levy (Fazenda) o passaporte para dias melhores. Sem o hábito de dar autonomia aos auxiliares, Dilma tenta inaugurar um novo momento, prometendo diálogo e cumprindo com sua intenção de ouvir os aliados.
- O governo tem obrigação de abrir o diálogo. Obviamente, de um lado, uma postura humilde, porque, para dialogar, você tem de aceitar o diálogo. O que temos de postura humilde é "estou aberto ao dialogo". Ao mesmo tempo, o governo tem de ter uma postura firme naquilo que ele acha importante e que, muitas vezes, está coerente com o que as manifestações querem e, algumas vezes, não - disse a presidente.
Durante a entrevista, falou de forma coloquial, usando bastante a expressão mineira "ocê". Também fez questão de explicar didaticamente termos econômicos, como as medidas anticíclicas adotadas para estimular a economia durante a crise internacional, e a relação entre a dívida pública e o PIB (soma de bens e serviços produzidos no país). A obrigação do governo, segundo a presidente, é escutar o recado das ruas. Ela reiterou que o compromisso de seu governo é combater a corrupção e a impunidade. Em resposta ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que afirmou que a corrupção está no Executivo, Dilma disse que nenhum setor está imune a desvios:
- A corrupção não nasceu hoje, ela não só é uma senhora bastante idosa nesse país, como ela não poupa ninguém. Ela pode estar em tudo quanto é área, inclusive, no setor privado.
A presidente insistiu na importância da aprovação do ajuste fiscal e pediu apoio às propostas em tramitação na Câmara. Dilma tem enfrentado resistência dos governistas e de Cunha e do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que colocam em votação projetos sem aval do Planalto, atendendo à pressão da oposição.
- Quando a gente diz que o quanto pior melhor é algo que não se pode aceitar, o que nós estamos dizendo é o seguinte: vamos brigar depois, agora vamos fazer, para o bem do Brasil, tudo aquilo que tem de ser feito pelo bem do Brasil. É essa a ideia - afirmou.
Instabilidade ameaça a todos
Segundo a presidente, as instituições políticas brasileiras não estão à altura das necessidades do país, e isso inclui todos os partidos políticos. Dilma afirmou que, em uma democracia, o diálogo e a livre manifestação são essenciais, mas as regras do processo democrático têm de ser respeitadas para garantir a governabilidade:
- Se você instabiliza o país sempre que lhe interessa, uma hora essa instabilidade passa a ser algo que ameaça a todos. A escalada é a pior situação que tem. Nós estamos em uma fase democrática em que temos de buscar o consenso mínimo, ninguém tem de concordar em tudo. Pelo contrário, eu acho que é da democracia não haver concordância e unanimidade. Unanimidade só tem em um regime e a gente sabe qual é. Alguns pensam e falam, e os outros que calem a boca.
A prisão de Renato Duque e o pedido de abertura de inquérito contra o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto foi considerada problema antigo, com personagens que já estavam sendo investigados.
- Eu acho que esses acontecimentos mostram que todas as teorias de como é que o governo interferiu no Ministério Público para investigar ou fazer qualquer coisa com quem quer que seja é absolutamente infundada.
O 'MINEIRÊS' E A TENTATIVA DE VIRAR O JOGO
Reaparição de dilma mostra mudança na comunicação da presidente
Alan Gripp
Diálogo, humildade, abertura, erros. Se, por alguma razão, um brasileiro tivesse ficado completamente fora do ar nas últimas 48 horas não reconheceria a presidente Dilma Rousseff que reapareceu ontem, depois das manifestações que levaram multidões às ruas.
Dilma mudou no conteúdo e na forma. Fez esforço para parecer mais humana, o que amplificou até o seu "mineirês". O tradicional "minha querida" deu lugar ao "ocê", ao se dirigir aos repórteres na (rara) entrevista coletiva.
Foi um evidente cavalo de pau na comunicação da presidente, que, de tantos erros, contribuiu para o aumento do mau humor no país nas últimas semanas e fez a crise subir a rampa do Planalto.
Não foram poucos problemas. No domingo retrasado, quando a lista de políticos investigados na Lava-Jato obrigava a dupla Renan Calheiros e Eduardo Cunha a dar explicações, Dilma foi à TV para pedir "paciência" à população. Roubou-lhes a bola e, de quebra, tornou-se alvo do primeiro de muitos panelaços que virão.
No dia seguinte, visitou uma feira de construção em São Paulo, cidade claramente mais hostil a ela. Resultado: recebeu uma sonora vaia, protagonizada por trabalhadores do local, desidratando o discurso de que os batedores de panela da véspera se limitavam a felizes proprietários de varandas gourmet.
A crise se aprofundou com o discurso que passou a atribuir as manifestações a uma tentativa de "golpismo", como fizeram Pepe Vargas e Miguel Rossetto. Jogaram gasolina na fogueira.
Ontem o governo acusou o golpe, e Dilma calçou as sandálias da humildade. Fez afagos nos descontentes das ruas, no Congresso e até nos repórteres. Vai precisar disso e de muito mais para controlar os ânimos do país, explicar o ajuste fiscal e reverter a sensação de estelionato eleitoral. Não é pouco.
BRASÍLIA
Voz das ruas
Em discurso durante a sanção do novo Código de Processo Civil, a presidente Dilma Rousseff disse que acompanhou as manifestações, no Palácio da Alvorada, e concluiu que "valeu a pena lutar pela democracia". Em tom emocionado, e lembrando que ela própria combateu a ditadura militar, Dilma afirmou que nunca mais um cidadão brasileiro sofrerá consequências por se manifestar contra quem quer que seja, inclusive contra a presidente. Emocionada, ao fim do pronunciamento, embargou a voz.
- Muitos da minha geração deram a vida para que o povo pudesse, enfim, ir às ruas para se expressar. Eu, particularmente, participei do processo de resistência à ditadura. Sofremos as consequências da resistência para ter um país livre da censura e da opressão e da interdição da liberdade de expressão. Nunca mais nós vamos ver no Brasil pessoas que ao manifestarem sua opinião, seja contra quem quer que seja, inclusive a presidente da República, sofrerem quaisquer consequências. Ontem, vendo centenas de milhares de cidadãos se manifestando pelas ruas brasileiras não pude deixar de pensar: valeu a pena lutar pela liberdade, valeu a pena lutar pela democracia. Este país está mais forte do que nunca - disse a presidente.
Dilma disse que o Brasil teve uma demonstração clara de que é um país democrático e que vai governar para todos.
- O meu compromisso é governar para os 203 milhões de brasileiros. Seja os que me elegeram, seja os que não votaram em mim. Seja os que participam das manifestações, seja os que não participam", afirmou.
Antes de Dilma, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, destacou a liberdade de manifestação, lembrando que na ditadura as pessoas não podiam protestar e os ministros não davam entrevistas.
- Naquela época, se alguém batesse panela enquanto o ministro da Justiça falava, era enquadrado na Lei de Segurança Nacional, era preso. Naquela época, os ministros da Justiça diziam "nada a declarar". Hoje eu tenho o dever de declarar. Bem-vinda, democracia -afirmou Cardozo.
Dilma afirmou ter certeza de que os brasileiros querem um país em que "todos possam exercer seus direitos pacificamente, sem ameaças e sem desrespeito às liberdades civis e às liberdades políticas". Para a presidente, mesmo diante de apelos "a aventuras e a rupturas da normalidade política", o país escolheu o caminho da democracia. Dilma destacou que o seu governo assegurou "absoluta liberdade de atuação" à Polícia Federal e "total autonomia" ao Ministério Público na investigação de crimes de qualquer espécie e de todos os envolvidos. ( Catarina Alencastro e Luiza Damé)