O depoimento do executivo da empresa Toyo Setal, Augusto Mendonça, um dos principais delatores do esquema criminoso de desvio bilionário de recursos da Petrobras, prestado ontem, na CPI que apura irregularidades na estatal, evidenciou que o dinheiro sujo de propina mascarou doações eleitorais feitas dentro da lei. Ele informou que, após obter contratos na petroleira, pode ter pago entre R$ 100 milhões e R$ 110 milhões em suborno e doações a partidos políticos. Bastante tranquilo, articulado e disposto a responder a todos os questionamentos, Mendonça comunicou que, por orientação do ex-diretor de Serviços da estatal Renato Duque, esteve com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto para repassar à legenda dinheiro destinado a campanhas políticas.

Conforme o depoimento de Augusto Mendonça, os recursos eram provenientes dos acertos realizados no âmbito dos contratos da Petrobras. “Duque me pediu que eu fizesse contribuições ao PT. Na primeira vez, fui procurar João Vaccari no escritório do PT, dizendo a ele que tinha interesse em fazer contribuição ao partido. Ele me indicou onde a gente deveria contribuir. Duque me pediu outras vezes. Tenho todas as contribuições detalhadas, os comprovantes entregues, no meu depoimento (da delação premiada)”, afirmou.

Mendonça ressaltou que todas as doações eram legais. Posteriormente, afirmou que o dinheiro doado fazia parte do acerto que teria feito com Renato Duque. Disse também que fez doações a vários parlamentares e a partidos políticos, incluindo o PSDB, o PPS e o PTB. O próprio relator da CPI, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), teve parte da campanha para a Câmara financiada pela Toyo Setal.

Durante o depoimento, Augusto Mendonça evitou falar as palavras “propina” e “suborno”. Referia-se sempre a comissões negociadas. O deputado André Moura (PSC-BA) chegou a se irritar. “O senhor pagou de R$ 50 milhões a R$ 60 milhões ao Duque. O senhor não vai chamar isso de contribuição”, disse. Em seguida, perguntou se Mendonça não havia pago propina disfarçada de consultoria aos ex-ministros Antônio Palocci e José Dirceu. “Não, senhor. Em hipótese nenhuma”, respondeu. No entanto, admitiu que se encontrou com o ex-ministro para discutir assuntos institucionais do mercado offshore: “Já estive algumas vezes com José Drceu”.

O delator explicou que as comissões em questão se referiam a dois contratos firmados com a Petrobras por um consórcio formado pelas construtoras Setal e Mendes Junior. “Nós tínhamos dois contratos, acredito que para a Diretoria de Serviços, entre R$ 70 milhões e R$ 80 milhões (de propina), e para a Diretoria de Abastecimento, na faixa de R$ 30 milhões”, destacou.

Desagravo
Na CPI, Mendonça chegou a fazer uma defesa da Petrobras e disse que a corrupção era generalizada apenas nas Diretorias de Abastecimento e de Serviços. Segundo relatou, só sabia de três pessoas que participavam da organização criminosa no âmbito da estatal: Paulo Roberto Costa, Renato Duque e Pedro Barusco. “Estamos assistindo, hoje, à Petrobras sendo massacrada pela mídia, pela opinião pública, com a imagem arranhada. Aparece como uma companhia de segunda categoria, repleta de gente corrupta, mas é o inverso. Tive uma participação longa e meu único contato com corrupção foi com essas três pessoas (Renato Duque, Paulo Roberto Costa e Pedro Barusco). Antes disso, nunca soube de nada, nunca houve nada. Durante esse período, foi com essas pessoas”, atestou.

O executivo explicou que as empresas começaram a se unir ainda nos anos 1990, como uma forma de se proteger. De acordo com o delator, havia uma concorrência acirrada, e isso não era bom para os negócios. Inicialmente, nove empresas fizeram parte desse seleto grupo. “Ele (o cartel) começa a se formar no fim dos anos 1990, em 1996 ou 1997, entre um número mais limitado de empresas. Na época, eram nove empresas que só tinham controle e, assim mesmo precário, entre si. Não tinham controle sobre quem seria convidado pela Petrobras, não tinha como saber quem participaria ou não. Era uma ação interna dentro dessas companhias.” Augusto Mendonça destacou que, a partir de 2005 e 2006, o grupo foi ampliado a ganhou força dentro da estatal. “Teve mais condições de funcionar a partir do momento em que houve como controlar, com apoio de integrantes da Petrobras, quem seria convidado.”

Ao ser questionado por que aceitou pagar propina aos servidores da petroleiera, Mendonça disse que chegou a ser ameaçado pelo ex-deputado José Janene, já falecido. “Ele disse que eu tinha que procurar o Duque para acertar. Eu fui ameaçado por ele”, declarou. O empresário não explicitou claramente as vantagens recebidas, mas, tentando se colocar no papel de vítima, disse que os empresários temem represálias. “O poder que um diretor da Petrobras tinha de atrapalhar era enorme. De ajudar, era pequeno. Na minha opinião, eles vendiam muito mais dificuldade do que facilidade. Na minha opinião, as empresas participavam muito mais por medo do que por facilidades”, concluiu.

O relator da CPI, deputado Luiz Sérgio, avaliou o depoimento do delator de forma positiva. “Ele contribuiu com as investigações. Em relação a Vaccari, nem melhora nem piora a situação dele. Continuamos a investigação”, disse o petista. 

» O discurso do delator
Confira os principais trechos do depoimento prestado ontem por Augusto Mendonça na CPI da Petrobras



Trio de corruptos
» “Estamos assistindo, hoje, à Petrobras sendo massacrada pela mídia, pela opinião pública, com a imagem arranhada. Aparece como uma companhia de segunda categoria, repleta de gente corrupta. Mas é o inverso. Tive uma participação longa e meu único contato com corrupção foi com essas três pessoas (Renato Duque, Paulo Roberto Costa e Pedro Barusco). Antes disso, nunca soube de nada, nunca houve nada. Durante esse período, foi com essas pessoas”

Contratos com a Petrobras
» “Nós tínhamos dois contratos, acredito que para a Diretoria de Serviços, entre R$ 70 milhões e R$ 80 milhões, e para a Diretoria de Abastecimento, na faixa de R$ 30 milhões”

Formação do cartel
» “Ele começa a se formar no fim dos anos 1990, em 1996 ou 1997, entre um número mais limitado de empresas. Na época, eram nove empresas que só tinham controle e, assim mesmo precário, entre si. Não tinham controle sobre quem seria convidado pela Petrobras, não tinha como saber quem participaria ou não. Era uma ação interna, dentro dessas companhias”

Ampliação
» “Em 2005, 2006, o grupo foi ampliado e ganhou efetividade. Teve mais condições de funcionar a partir do momento em que houve como controlar, com o apoio de integrantes da Petrobras, quem seria convidado”

Temor
» “O poder que um diretor da Petrobras tem de atrapalhar era enorme. De ajudar, era pequeno. Na minha opinião, eles vendiam muito mais dificuldade do que facilidade. Na minha opinião, as empresas participavam muito mais por medo do que por facilidades”

José Dirceu
» "Estive com ele em eventos de campanhas políticas. Não considero que foram reuniões. O último foi durante a campanha de 2010, no Rio de Janeiro. Não sou amigo dele"

Lula e Dilma
» “A minha opinião é que ele não sabia de nada. Nem as pessoas do conselho. Se soubessem, isso tinha parado lá atrás”

João Vaccari
» “A minha conversa pelo lado da Diretoria de Serviços sempre ocorria com o Duque ou o Barusco. O Duque, em algumas oportunidades, pediu para que eu fizesse contribuições ao Partido dos Trabalhadores. Na primeira vez, fui procurar o João Vaccari no escritório do PT, dizendo que tinha interesse em fazer contribuição para o partido, e ele me indicou como eu deveria contribuir. Duque me pediu outras vezes também”