A partir da constatação de que a desoneração de impostos e financiamentos subsidiados não sustentam uma política industrial de longo prazo, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial pretende lançar, no segundo semestre, o Programa Nacional de Produtividade. Segundo Alessandro Teixeira, presidente da ABDI, o programa contemplará políticas transversais de incentivo à capacitação e inovação e não demandará recursos públicos. Será, conforme disse, uma nova política industrial, diferente das anteriores por não ter foco setorial.

Para ele não está correta a percepção, amplamente difundida, de que da porta para dentro da fábrica está tudo funcionando bem e que os problemas estão da porta para fora, nas falhas de infraestrutura e logística. "Isso não é verdade", diz. "Temos que atacar os problemas estruturais da indústria de transformação", completa.

Há um leque de questões que prejudicam a produtividade do setor, a começar da baixa qualificação da mão de obra, reconhecido como problema de alta importância por 67% dos entrevistados em enquete recente conduzida pelo Instituto de Pesquisa econômica aplicada (Ipea). A pesquisa apontou, também, outros problemas como: baixa escala de produção, mau desempenho dos fornecedores, infraestrutura de transporte inadequada, falta de investimentos em inovação, baixa qualidade dos equipamentos usados, métodos de gestão inadequados.

Para se ter uma ideia, a idade média dos equipamentos da indústria local é de 17 anos, enquanto na Alemanha esse tempo é de apenas 5 anos e, nos Estados Unidos, de 7 anos.

Os resultados das políticas de capacitação de mão de obra também não são muito animadores. Apenas 22,5% da população em idade ativa frequentou cursos profissionalizantes. Dos que concluíram os cursos, 43% não trabalham no setor para o qual buscou qualificação. Dos 77,5% que não frequentaram, 69% foi por falta de interesse.

Nenhum país do mundo abdica de ter política industrial, assinala Teixeira. Ele pondera, entretanto, que "não é com desonerações e subsídios" que se resolve o problema, e sim com inovação, melhor ambiente de negócios, financiamentos através do mercado de capitais, fortalecimento das pequenas empresas. E, mais, tendo todo o governo trabalhando na redução de custos de produção, sobretudo com mais educação da força de trabalho e melhor logística.

Com a queda da produtividade na indústria não há como se ter ganho de competitividade frente aos concorrentes externos e, portanto, não há muito a fazer para conseguir ser parte das cadeias globais de produção.

O presidente da ABDI prega para a indústria um trabalho equivalente ao que a Embrapa e os serviços de extensão rural fizeram para na agricultura. Tem que entrar na fábrica e ver o que não está funcionando a contento. gentes para isso ele diz que há seja na própria ABDI, no Sebrae, no Senai e no Ministério do Desenvolvimento Industrial.

Teixeira reforça a convergência que há entre os responsáveis pelas políticas para a indústria e a área econômica do governo, às voltas com imensas restrições fiscais. "Política industrial, agora, é menos hardware e mais software", diz. Durante todo o dia de hoje os envolvidos nessa concepção estarão em um seminário para discutir as linhas gerais dessa nova iniciativa.

 

Gerdau defende coalizão para reerguer indústria

Com o presidente do conselho de administração do grupo Gerdau, Jorge Gerdau, como uma das figuras mais proeminentes, um total de 26 entidades representantes de indústrias e seis centrais sindicais e sindicatos de trabalhadores lançaram ontem o movimento "coalizão indústria­-trabalho para competitividade e desenvolvimento", para reivindicar mudanças que viabilizem a recuperação do setor manufatureiro.

Gerdau declarou-­se emocionado no lançamento da coalização. "Estou convicto de que vamos ganhar essa disputa e essa guerra. Nós somos praticamente 4,5 milhões de trabalhadores representados pelas centrais sindicais. Nunca tivemos uma coalizão assim reunidos pela boa causa. Se desta vez não conseguirmos, não conseguiremos mais, pela mobilização e pela dimensão da representação", declarou. "Mais de 50% do faturamento da indústria de transformação estão representados e vamos conseguir mais adesões quando nos aproximarmos do nosso objetivo. É preciso sensibilizar o executivo federal, estadual, municipal, o Congresso, a Câmara dos Deputados e as assembleias legislativas."

Para Gerdau, é preciso fazer com que a indústria de transformação retorne à produção que já teve. "Quando comecei, a indústria tinha mais de 30% do PIB, caiu para 24%, para 13%, para 12% e continua caindo. É inaceitável. Precisamos de igualdade competitiva com os nossos concorrentes neste mundo globalizado, seja para a importação ou exportação. Precisamos focar em três pontos: impostos, juros e valor do dólar." 

No campo dos impostos, diz Gerdau, o problema está na cumulatividade de tributos federais, estaduais e municipais que não se compensam. A siderurgia, argumenta, chega a ter 15% de impostos "escondidos". "É impossível competir. Em todos os países em que trabalhamos há crédito automático de impostos e aqui isso não é possível." Gerdau atacou também a taxa de juros brasileira e a política cambial. "A soma de tributos, juros e câmbio é condição que mata a indústria de transformação. A coalizão não pode parar até atingirmos os objetivos. Vamos lutar para conseguir resultados porque é do interesse do país."

Em dezembro do ano passado, Gerdau evitou comentários sobre a Operação Lava­Jato, que revelou desvio de recursos na Petrobras, da qual foi membro do conselho de administração até abril de 2014. Em dezembro, disse que o então futuro ministro da Fazenda, Joaquim Levy, era " um gestor do setor público absolutamente comprovado" e que tocava em "pontos-­chave" para obter superávit primário de 1,2% do PIB em 2015.

Carlos Pastoriza, presidente da Abimaq, uma das entidades que lideram a iniciativa por parte das empresas, diz que as entidades se reúnem há mais de um ano. "Não é movimento de oposição a quem quer que seja, não é partidário, é um grito de alerta para a destruição por questões macroeconômicas que tornam inviável a fabricação competitiva de manufaturas no país." Se as condições macroeconômicas forem resolvidas, diz ele, no prazo de cinco anos a indústria pode gerar 1,5 milhão de empregos e realizar investimentos de US$ 120 bilhões. Ele diz, porém, que o
movimento ainda não definiu os próximos passos. "Vamos avaliar e decidir o que fazer de forma democrática.