Título: Massacre sírio
Autor:
Fonte: Correio Braziliense, 02/08/2011, Opinião, p. 14

O massacre de mais de 100 civis em Hama constitui outra demonstração da escalada de violência na Síria. Contagiado pela Primavera Árabe, movimento que derrubou os governos da Tunísia e do Egito, o povo do país do Oriente Médio foi às ruas para exigir democracia, liberdade e menos corrupção. O levante, que dura mais de quatro meses, mostra resultado assustador: os mortos chegam a 1.952, dos quais 1.583 civis e 369 militares. O total de presos, segundo entidades ligadas aos direitos humanos, ultrapassa os 12 mil.

Hama, a quarta cidade do país, tem histórico de atentados contra a população civil. Em junho deste ano, 65 pessoas perderam a vida em ataque do Exército. Em 1982, o ditador Bashar Al-Assad, pai do atual e igualmente sangrento presidente, reprimiu rebelião organizada pela Comunidade Muçulmana que deixou saldo de 30 mil cadáveres. Na ocasião, o mundo tomou conhecimento da barbárie à prestação, dada a lentidão das comunicações.

Hoje, informada on-line sobre a ascensão da selvageria, a comunidade internacional repudiou a ação. O presidente americano, Barack Obama, ao condenar a corrupção, a tortura e o terror, disse que "a Síria será um lugar melhor quando a transição democrática avançar". Reino Unido, França e Alemanha recriminaram os atos. A Turquia, tradicional parceira do governo de Assad, se declarou "profundamente decepcionada". Itália e Alemanha pediram reunião do Conselho de Segurança da ONU para que seja tomada posição firme contra Damasco. Ban Ki-Moon, secretário-geral da ONU, além de pedir o fim da violência, ameaçou as autoridades sírias com a reprimenda das leis internacionais.

A União Europeia impôs sanções contra Bashar al-Assad, familiares e aliados. Entre as penas, sobressaem a proibição de viagens e o congelamento de ativos no exterior. Mais cinco pessoas devem engordar a lista de punições do bloco europeu. Os Estados Unidos empenham-se na ampliação do isolamento do governo de Damasco. Esperam que a marginalização crescente contenha a fúria do ditador contra a população civil.

Vale lembrar que hoje começa o Ramadã, o mês sagrado no calendário islâmico. Durante esse lapso de tempo, o povo jejua do nascer ao pôr do sol. O massacre de Hama parece advertência ¿ o governo não vai tolerar manifestações depois das preces. Grupos oposicionistas (entre os quais o ativo Revolução Síria 2011), que incrementam a revolta via internet, convocaram protestos para hoje. A expectativa é grande. Apesar da brutal repressão, dificilmente o ditador Assad será capaz de conter o levante.