O governo sabia, acusa doleiro

Correio braziliense, n. 19978, 12/05/2015. Política, p. 5

André Shalders

O doleiro Alberto Youssef, considerado o pivô da Operação Lava-Jato, voltou a afirmar que a cúpula do Palácio do Planalto sabia do esquema de corrupção instalado na Petrobras voltado para a distribuição de propina a políticos do PT, do PP, do PMDB e de outros partidos. Youssef falou ontem aos deputados da CPI da Petrobras em Curitiba, onde está preso. Respondendo a um questionamento do deputado Bruno Covas (PSDB-SP), o doleiro disse não acreditar que o Planalto “coordenou” o esquema. “Não digo que havia uma coordenação, mas acredito que eles tinham conhecimento, no meu entendimento, do que ocorria”, disse. Youssef também acrescentou que não poderia “provar” que o governo tivesse envolvimento.

Bruno Covas citou nominalmente os políticos referidos por Youssef em seu termo de delação premiada: a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ex-ministros Antonio Palocci, Gleisi Hoffmann, José Dirceu, Ideli Salvatti, Gilberto Carvalho e Edison Lobão. Youssef confirmou acreditar que eles tinham conhecimento do esquema. O doleiro também declinou as razões que o levavam a crer no “conhecimento” do Planalto. “Primeiro, eu escutava isso do doutor Paulo Roberto Costa (ex-diretor de Abastecimento da Petrobras) quando havia discussão interna do partido (o PP, que indicou Costa). Depois, o Paulo Bernardo, quando ministro, fez pedido a Paulo Roberto para que eu entregasse R$ 1 milhão para Gleisi (Hoffman). A opinião é minha, é meu sentimento. Agora, provas, eu não tenho”, disse. O Palácio do Planalto e o Instituto Lula disseram ontem que não comentarão o caso. Youssef também negou que tenha recebido pedido de Palocci de recursos para a campanha de Dilma, conforme disse Paulo Roberto Costa.

O doleiro, no entanto, confirmou aos deputados ter recebido dinheiro da empreiteira OAS, que seria destinado ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Entretanto, disse que não poderia confirmar se o dinheiro era realmente destinado ao parlamentar. “Recebi da OAS para que fosse entregue o recurso nesse endereço. Não sabia quem era o morador”, disse, acrescentado que era comum que os nomes dos reais destinatários fossem omitidos. A propina, confirmou o doleiro, foi entregue ao ex-policial federal Jayme “Careca” Alves, que o teria repassado a Cunha. O doleiro disse não conhecer pessoalmente Cunha nem poder garantir a veracidade da acusação de Careca.

Silêncio
Ontem, os parlamentares também tentaram ouvir em Curitiba outros personagens-chave do escândalo revelado pela Lava-Jato. Considerado o operador do PMDB no esquema, o lobista Fernando Soares, mais conhecido como Fernando Baiano, invocou o direito de ficar calado diante das perguntas dos parlamentares. Fizeram o mesmo o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró e o empresário Mário Góes, da Arxo Industrial do Brasil, de Santa Catarina. Hoje, a CPI pretende ouvir os doleiros Nelma Kodama e Carlos Habib Chater e os ex-deputados Luiz Argôlo, André Vargas e Pedro Corrêa, entre outros. As tomadas de depoimentos estão ocorrendo em duas etapas e ocupam o dia todo.

Além de Youssef, a CPI ouviu ontem também Iara Galdino, ex-funcionária de Nelma Kodama. Condenada a 12 anos de prisão, Iara admitiu à CPI que trabalhava para a doleira abrindo empresas de fachada, usadas para acobertar operações financeiras ilegais. O trabalho seria intermediado por Lucas Pacce, outro ex-funcionário de Nelma, também preso, e que teria sido responsável por revelar o nome de Iara em um acordo de delação premiada. Iara disse ainda que as remessas de dinheiro ao exterior no nome dela foram feitas com assinaturas falsas.Cunha minimiza acusação
O presidente da Câmara minimizou ontem o depoimento de Alberto Youssef. “O doleiro Alberto Youssef falou hoje (ontem) na CPI exatamente o que ele já tinha falado. Não houve alteração. E tudo que ele falou está baseado no que ele ouviu dizer de terceiros, que não se confirmou”, disse, aproveitando para alfinetar mais uma vez o procurador-geral da República, Rodrigo Janot. “O meu é o único caso em que o procurador (Janot) pegou uma pessoa falando, não teve a confirmação do outro e abriu o inquérito. Quando ele diz que foi impessoal, só foi impessoal com os outros. Comigo, ele foi pessoal”, disse.



“Não digo que havia uma coordenação, mas acredito que eles (Planalto) tinham conhecimento, no meu entendimento, do que ocorria”

“O Paulo Bernardo, quando ministro, fez pedido a Paulo Roberto para que eu entregasse R$ 1 milhão para Gleisi (Hoffman)”
Alberto Youssef, doleiro