Título: Não sou lixo. O meu partido não é lixo
Autor: Lyra, Paulo de Tarso; Rothenburg, Denise
Fonte: Correio Braziliense, 03/08/2011, Política, p. 2

Em sua volta ao Senado, ex-ministro Alfredo Nascimento critica a falta de apoio de Dilma na crise que culminou com sua demissão

O discurso do ex-ministro dos Transportes e senador Alfredo Nascimento (PR-AM) foi a mais dura intervenção pública de um integrante do PR desde que estourou o escândalo na pasta, no início de julho. Em pouco mais de um hora de discurso na tribuna do Senado, Nascimento reclamou da maneira como o partido está sendo tratado pelo Palácio do Planalto. "Eu não sou lixo e o PR não é lixo para ser varrido desse jeito", bradou.

Diferentemente das declarações amenas do ex-diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) Luiz Antonio Pagot, quando convocado para prestar esclarecimentos na Câmara e no Senado, o discurso de Nascimento foi explosivo. Ele reclamou que não recebeu da presidente Dilma Rousseff a proteção prometida por ela própria. E jurou que tomou todas as medidas necessárias, incluindo promover um pente-fino nos contratos da pasta para evitar irregularidades. "Tenho a consciência tranquila de que jamais deixei de pautar meus atos pela ética", disse o ex-ministro.

O senador por Amazonas disse que comandou a pasta dos Transportes durante seis anos e meio e jamais teve qualquer dos seus atos questionados. E considerou injusto seu afastamento. "Em momento algum pedi ou determinei ação da qual possa me arrepender. Passei por um julgamento desprovido de provas", disse.

Nascimento afirmou ainda que, no ano passado, após perder a eleição para o governo do Amazonas, estava disposto a reassumir o mandato parlamentar. Declarou que teve, durante o governo de transição, duas conversas com a então presidente eleita, Dilma Rousseff, e ela reiterou que gostaria de contar com o senador no ministério. "O PR foi o primeiro partido a aderir à campanha do ex-presidente Lula, em 2002. Permanecemos neste governo porque acreditamos no projeto", completou.

Na conta do sucessor Como já tinha adiantado a interlocutores da legenda, Alfredo Nascimento jogou parte da responsabilidade dos aumentos nos custos da pasta na conta do atual ministro, Paulo Sérgio Passos. Ele declarou que o incremento exorbitante nos contratos ocorreu após ele próprio ¿ e a presidente Dilma Rousseff ¿ terem deixado o governo para concorrer nas eleições de 2010. "O ministério que encontrei em 2011 era muito diferente do ministério que deixei em 2010. O PAC dos Transporte tinha R$ 58 bilhões previstos para investimentos. Em 2011, esse valor subiu para R$ 72 bilhões."

O acréscimo, segundo ele, foi acertado por Passos com o comitê gestor do PAC, na época composto pelos ministros da Fazenda, Guido Mantega; do Planejamento, Paulo Bernardo; e a chefe de Controle e Monitoramento da Casa Civil, Miriam Belchior. "Vi que tinha algo errado e avisei à presidente que faria uma triagem nos contratos. Ela me deu o prazo para terminar o trabalho até 15 de julho (nove dias após a exoneração dele da pasta)".

O ex-ministro reclamou também que a presidente Dilma realizou diversas reuniões com representantes da pasta sem a sua presença ¿ entre elas, a que detonou a crise nos Transportes e uma para discutir o PAC, que culminou com seu pedido de exoneração.

Dilma: combate intenso à corrupção Horas antes de a oposição conseguir reunir no Senado o número de assinaturas necessárias para instalar a CPI que investigará as denúncias contra o Ministério dos Transportes, a presidente Dilma Rousseff comentou, pela primeira vez, as acusações que recaem sobre outras pastas, como Agricultura e Cidades. Segundo destacou, o governo não vai tolerar a corrupção, que será combatida "sistematicamente". Dilma afirmou ainda que não se deixará influenciar pelas notícias publicadas diariamente nos jornais. "O governo não irá se pautar por medidas midiáticas no combate à corrupção. Nós a combateremos efetivamente", destacou a presidente, após o lançamento do Plano Brasil Maior, na manhã de ontem.

(Débora Álvares)