Ex-tesoureiro do PT sofre nova denúncia do MP

 

Vaccari e ex-diretor da petrobras são acusados de lavagem de r$ 2,4 milhões

Germano Oliveira e Renato Onofre*

opais@oglobo.com.br

 

Escândalos em série

SÃO PAULO e CURITIBA

A força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) na Operação Lava-Jato apresentou ontem à Justiça nova denúncia contra o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, o ex-diretor de Serviços e Engenharia da Petrobras Renato de Souza Duque e o empresário Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, do grupo Setal. A denúncia foi oferecida pela prática de lavagem de dinheiro de R$ 2,4 milhões, de abril de 2010 a dezembro de 2013. O juiz Sérgio Moro ainda não decidiu se aceita a denúncia. O MPF pediu, além da condenação dos acusados, restituição de R$ 2,4 milhões e o pagamento, a título de indenização, de mais R$ 4,8 milhões.

Hoje, a Justiça fará acareação entre o doleiro Alberto Youssef e a cunhada de Vaccari, Marice de Lima.

Segundo a denúncia, uma parte da propina paga para Duque foi direcionada por empresas do grupo Setal Óleo e Gás, controlado por Mendonça, para a Editora Gráfica Atitude Ltda, a pedido de Vaccari, então tesoureiro do PT. Há vários indicativos de ligação da Gráfica Atitude com o PT e com os sindicatos dos Bancários de São Paulo e dos Metalúrgicos do ABC. O MPF pede o bloqueio de R$ 2,4 milhões de Mendonça, Duque, Vaccari e da Gráfica Atitude.

contratos simularam serviços

Segundo o MPF, para tentar dar aparência lícita aos repasses da propina, empresas do grupo Setal, Setec e SOG assinaram dois contratos, em 1º de abril de 2010 e em 1º de julho de 2013, com a Gráfica Atitude. A gráfica, porém, nunca prestou serviços às empresas do grupo Setal, emitindo notas frias.

O procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa, disse que, "embora a denúncia envolva um partido político, o esquema era pluripartidário. Já foram denunciados anteriormente operadores vinculados às diretorias controladas pelo PP e pelo PMDB. A partidarização do olhar sobre as investigações prejudica os trabalhos, porque tira o foco do que é mais importante, que é a mudança do sistema, o qual favorece a corrupção seja qual for o partido. Por isso, o MPF apresentou as dez medidas contra a corrupção e a impunidade".

A pena para lavagem de dinheiro é de até dez anos de prisão. Será aumentada de um até dois terços em razão da reiteração dos crimes e de eles terem sido praticados por organização criminosa.

Vaccari, Duque e outras 25 pessoas se tornaram réus sob a acusação de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Segundo a acusação, os dois participavam de reuniões para tratar de pagamentos de propina, pagas por meio de doações oficiais ao PT. Assim, os valores chegavam como doação lícita, mas eram oriundas de propina. O MPF aponta que foram 24 doações em 18 meses, no valor de R$ 4,2 milhões.

A defesa de Vaccari contestou a nova denúncia. Seu advogado Luiz Flávio Borges D'Urso afirmou que "a defesa estranha o fato de não ter havido o aditamento da denúncia anterior, pois o episódio relatado nesta nova denúncia refere-se tão somente à versão apresentada pelo delator Augusto Mendonça". Segundo D'Urso, "nenhuma prova foi apresentada quanto à participação de Vaccari, que nega, veementemente, ter orientado o delator Augusto Mendonça a fazer qualquer depósito, a qualquer título, na conta dessa Editora Gráfica Atitude". (*Enviado especial)

 

Petrobras diz a membros da CPI que vai reformular contratações

Medidas anticorrupção são explicadas a deputados em visita à estatal

Alexandre Rodrigues

alexandre.rodrigues@oglobo.com.br

Oito integrantes da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras na Câmara dos Deputados ouviram ontem da diretoria da estatal que os processos de compras da companhia serão reformulados para aumentar mecanismos de controle. Os deputados se reuniram por mais de quatro horas com diretores da Petrobras na sede da empresa, no Centro do Rio. O presidente, Aldemir Bendine, não participou por causa de um falecimento na família.

O presidente da CPI, deputado Hugo Motta (PMDB-PB), contou na saída que, numa apresentação sobre as medidas de prevenção à corrupção, foi explicado que a auditoria interna da estatal será reforçada com novos profissionais. A Diretoria de Governança, criada em janeiro, participará da elaboração dos contratos de todas as diretorias, com poder de veto.

Questionado sobre a declaração da presidente Dilma Rousseff de que a Petrobras "já virou a página" da corrupção, Motta disse "acreditar que sim". Ele elogiou o preparo dos diretores e disse que a empresa se mostrou comprometida em eliminar a ingerência política.

- Foi reforçado por nós que não é porque uma pessoa é indicada politicamente que não vai dar certo. Mas o critério político deve ser o último ou nem ser levado em conta - disse Motta.

tucano quer nova auditoria

O deputado Otavio Leite (PSDB-RJ) disse que ainda não está clara a virada de página da Petrobras. Ele vai requerer à Câmara dos Deputados a contratação de uma auditoria independente para analisar o balanço da estatal, divulgado semana passada com um prejuízo de R$ 21 bilhões em 2014, perdas de R$ 6 bilhões por corrupção e uma baixa contábil de R$ 44 bilhões que envolve também erros dos projetos.

- É preciso conferir esses números, definidos intramuros. A sociedade tem o direito a uma resposta confiável sobre como foi feita essa mágica para reduzir a perda de R$ 88 bilhões estimada anteriormente pela ex-presidente Graça Foster e o divulgado na semana passada - disse.

O relator da CPI, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), disse que revisar o trabalho da PwC, consultoria internacional contratada para auditar o balanço da estatal, seria perda de tempo. Ele atribuiu as dúvidas levantadas à disputa política entre oposição e governo na CPI.

- Se há uma auditoria internacional que aprovou o balanço, isso é um capítulo vencido - afirmou Luiz Sérgio.

No dia 8 de maio, uma comitiva da CPI irá às obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).