Inês Etienne Romeu, 72, sobrevivente da Casa da Morte
A memória da ex-guerrilheira produziu um dos mais contundentes depoimentos sobre a tortura nos anos de chumbo
A prisão política ocupava um pavilhão especial da Penitenciária Talavera Bruce, em Bangu, onde as presas comuns só entravam para levar as refeições três vezes ao dia. Certa vez, após deixar a comida de Inês Etienne Romeu, que cumpria pena de prisão perpétua, uma das presas comentou:
- Inês trava até trem com um olhar.
Esse mesmo olhar, realçado pelos óculos de lentes grossas, travou Mário Lodders na porta da casa da Rua Arthur Barbosa 668, em Petrópolis. Ele era o dono do imóvel. Corria o ano de 1981 e Inês, finalmente livre das grades, se sentia segura para denunciar o sofrimento vivido na casa, dez anos antes, e apontar o dedo para os responsáveis. E foi assim, guiado pela memória da única sobrevivente do local, que o país tomou conhecimento da Casa da Morte, como passou a ser chamado o aparelho clandestino montado pelo Centro de Informações do Exército (CIE) em Caxambu, Petrópolis, durante os anos mais violentos do regime militar.
Atônito e gaguejante, Lodders não conseguiu convencer os jornalistas e advogados presentes que não era a mesma pessoa que, durante os 96 dias que Inês ficou na casa, entre maio e agosto de 1971, submetida a suplícios físicos e psicológicos, cedeu o imóvel aos militares, entrou algumas vezes no local e chegou a oferecer-lhe uma barra de chocolates. Inês só conseguiu localizar o endereço porque decorara o número do telefone, 4090. Sua memória também a levou ao consultório de Amilcar Lobo, acusado por ela de ser o médico que a atendera na Casa da Morte - Amilcar teria o registro de médico cassado.
Da militância estudantil em Belo Horizonte, nos agitados anos 1960, foi um passo para a luta armada. Após uma rápida passagem pela Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop), Inês militou com Dilma Rousseff na VAR-Palmares. Foi acusada de integrar o grupo que participou do sequestro do então embaixador da Suíça, Giovanni Bucher, em dezembro de 1970. Capturada por uma equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, em São Paulo, em 5 de maio de 1971, foi levada ao Rio no dia seguinte.
três tentativas de suicídio na prisão
Ao chegar, desesperada, jogou-se sob as rodas de um ônibus, o que lhe rendeu uma grave ferida nas pernas e abdome. Entregue ao CIE, foi transferida para a Casa da Morte, local reservado para torturar guerrilheiros com papel de destaque em suas organizações. Foi agredida, humilhada e estuprada. No inverno, onde a temperatura local podia chegar a menos de 10ºC, era obrigada pelos carcereiros a deitar nua no cimento molhado: "Eu estava arrasada, doente, reduzida a um verme e obedecia como um autômato", contaria em depoimento entregue à OAB, em 1979, admitindo também três tentativas de suicídio durante o cárcere.
Inês só foi libertada após fingir concordar com seus algozes para trabalhar como infiltrada para o CIE. Em 2012, entrevistado pelo GLOBO, o coronel da reserva Paulo Malhães, um dos agentes da casa, admitiu que a presa os enganara. Libertada e doente, foi levada pela família a um hospital, onde sua prisão foi oficializada. Condenada à prisão perpétua, ficou no Talavera Bruce até 1979.
- Me lembro de sua chegada na prisão, toda machucada. Inês era fechada. Gostava de bordar tapetes e ver futebol na TV - recorda-se a ex-presa política Jessie Jane.
Livre, Inês lembrou codinomes dos torturadores, de presos supostamente executados na casa, entre os quais Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto, comandante de Inês e Dilma na VAR-Palmares, e detalhes que ensejaram um dos mais dramáticos relatos sobre os anos de chumbo. Em 2003, ao 61 anos, foi encontrada caída e ensanguentada em seu apartamento, com traumatismo craniano, o que a fez passar por anos de recuperação e viver com limitações neurológicas. O acidente nunca foi explicado. Apesar das dificuldades, continuou contribuindo para a elucidação dos crimes da ditadura.
Inês morreu na manhã de ontem, aos 72 anos, em casa, vítima de insuficiência respiratória, edema pulmonar e infarto do miocárdio. Segundo um dos irmãos, o jornalista Paulo Romeu, ela morreu enquanto dormia
- Ela se foi em paz, com tranquilidade.