Grécia paga FMI e evita moratória

Andrei Netto

 

O governo da Grécia honrou o pagamento de € 459 milhões devidos ao Fundo Monetário Internacional (FMI), na primeira de uma série bilionária de parcelas que Atenas terá de saldar com instituições internacionais ao longo de 2015 para evitar a moratória unilateral. O reembolso é relativo os empréstimos oferecidos em 2010 e 2012 pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelo fundo, cujo total foi de € 240 bilhões.

A transferência do valor a cada país-membro do FMI - inclusive o Brasil, que tem 1,79 cota do fundo - foi iniciada pelo Banco da Grécia, a autoridade monetária do País, na manhã desta quinta-feira, 9. A operação foi a segunda de porte realizada na semana, já que na quarta-feira a Agência Grega de Dívida (PDMA) anunciou a renovação de € 1,4 bilhão em títulos soberanos com maturidade de seis meses, a maior parte em poder de investidores e bancos estrangeiros. As operações fizeram com que os juros cobrados por bônus da dívida grega com validade de 10 anos caíssem para 11,25%, mas ainda de longe os mais elevados da Europa.

 

Ministro de Finanças grego, Yanis Varoufakis disse que Atenas cumpriria com 'todas as suas obrigações com todos os seus credores'

Ministro de Finanças grego, Yanis Varoufakis disse que Atenas cumpriria com 'todas as suas obrigações com todos os seus credores'

Mesmo com o pagamento, a preocupação das autoridades europeias e dos investidores privados persiste, no entanto. Isso porque Atenas terá de saldar em maio um total de € 760 milhões em dívidas, dos quais € 320 milhões em juros, e ainda renovar € 2,8 bilhões em bônus soberanos. Para tanto, a Grécia espera que os parceiros europeus transfiram para sua conta os € 7,2 bilhões relativos à última parcela do programa de resgate, pendente desde agosto de 2014. Sem um acordo com Bruxelas, os próximos reembolsos podem levar o governo radical de esquerda grego à moratória.

O problema é que para receber os recursos a União Europeia vem exigindo que o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, apresente um programa consistente de reformas econômicas e administrativas, assegurando que as contas públicas não serão prejudicadas pelo relaxamento das medidas de austeridade fiscal.

Na quinta-feira, 9, uma reunião de técnicos do Euro Working Group (EWG) passou o pente fino nas 26 páginas do projeto de reformas apresentado pelo ministro grego de Finanças, Yannis Varoufakis. O grupo deu seis dias úteis para que Atenas reapresente o projeto de reformas, aprimorando iniciativas nas áreas de seguro social, mercado de trabalho e privatizações. O martelo sobre as medidas deve ser batido em reunião do fórum de ministros de Finanças da zona do euro (Eurogrupo) marcada para 24 de abril.

Rússia. Ainda em visita oficial a Moscou, Tsipras tomou a iniciativa de tranquilizar a opinião pública grega e os líderes políticos da União Europeia sobre a natureza de sua aproximação com o Kremlin. Na quarta-feira, o premier chegou a pedir o fim das sanções europeias contra o governo de Vladimir Putin em função da crise política e militar na Crimeia e em Donbass, territórios da Ucrânia ocupados pela Rússia e por milícias separatistas pró-Moscou. A postura irritou dirigentes da União Europeia.

"Para a Grécia, a Rússia é parte integrante da sua política externa dinâmica e multifacetada que visa explorar possibilidades para que o país possa voltar a ganhar perspectivas de crescimento e fortalecer o seu papel no cenário internacional", disse Tsipras, falando ao lado do primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev. Mas a prioridade, reiterou, é encaminhar as negociações com Bruxelas e garantir a permanência do país na zona do euro. "Consideramos que o problema é europeu, e por esta razão que buscamos uma solução europeia conjunta", argumentou.

 

Fundo vai lucrar € 4,3 bi com empréstimo aos gregos

 

O Fundo Monetário Internacional (FMI) vai lucrar € 4,3 bilhões pelos próximos dez anos por conta do empréstimo que fez para evitar que a Grécia quebre. Os dados foram divulgados pela Jubilee Debt Campaing, uma organização não governamental estabelecida no Reino Unido e que promove debates sobre o modelo pelo qual o FMI e outras instituições fazem empréstimos.

De acordo com os cálculos da entidade, o FMI já obteve como lucro cerca de € 2,5 bilhões referente aos juros cobrados desde 2010 pelo pacote de resgate aos gregos. O Fundo garantiu 10% do socorro que a Grécia obteve. O restante veio da União Europeia (UE) e do Banco Central Europeu (BCE).

Mas, com o pagamento de € 462 milhões feito ontem pela Grécia ao FMI, o valor vai quase dobrar até 2024 em termos de benefícios para o Fundo.

Condições. Segundo a ONG, o Fundo está cobrando uma taxa de juros de 3,6% nos empréstimos aos gregos, além de exigir reformas estruturais, a demissão de milhares de funcionários públicos e cortes nos gastos.

"Essa taxa de juros é muito superior ao que a instituição precisa para cobrir todos seus custos", alertou a entidade. Para a ONG, com uma taxa de juros de apenas 0,9%, o FMI já poderia cobrir todos seus gastos. "Se essa taxa fosse cobrada sobre a Grécia pelo FMI desde 2010, o país teria gasto €  2,5 bilhões menos."

"O pacote do FMI não apenas resgatou bancos que fizeram empréstimos inconsequentes, mas também está retirando dinheiro hoje do país", declarou Tim Jones, economista da Jubilee Debt Campaign. "Essa taxa abusiva se soma a uma dívida forçada sobre o povo grego", alertou.

Promessa de campanha. O governo de Alexis Tsipras venceu as eleições prometendo rever a dívida e o pacote de resgate ao país. Mas, uma vez no poder, sua equipe passou a negociar com a UE e até mesmo a pagar o FMI.

Seu discurso, porém, continua insistindo que foram as condições impostas pelos credores que levou o país a seis anos consecutivos de recessão, 50% de desemprego entre jovens e 20% da população abaixo da linha da pobreza.

Nesta semana, Tsipras visitou Vladimir Putin, presidente da Rússia, em busca de alternativas econômicas e ainda criou em Atenas um Comitê Independente para investigar quem e sob quais condições o pacote de resgate em 2010 foi negociado.

Segundo a ONG, 25% de todo o lucro que o FMI teve desde 2010 em empréstimos pelo mundo foi com a Grécia. O dinheiro das taxas de juros cobrado permitiu que as reservas hoje do Fundo cheguem a € 19 bilhões. A dívida grega com o FMI é ainda de € 24 bilhões.