Valor econômico, v. 15, n. 3735, 14/04/2015. Brasil, p. A3
Por Ana Conceição e Arícia Martins
Com os fortes aumentos de preços administrados sobretudo de tarifas de energia concentrados no primeiro trimestre, as expectativas para a inflação nos próximos 12 meses já começam a ceder de maneira um pouco mais significativa, se comparadas com projeções ainda bastante altas para o ano de 2015 fechado. De acordo com o boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, a estimativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses baixou, de 6,11% para 5,99%. É a primeira vez que o mercado vê a inflação em 12 meses abaixo de 6% desde julho do ano passado. Ontem, mesmo a previsão dos analistas de mercado para a inflação deste ano mostrou ligeiro recuo, após o índice de março ter vindo um pouco menos pressionado do que a média esperada.
Após 14 semanas consecutivas em alta, a projeção para alta de preços neste ano cedeu. Os analistas acreditam agora que o índice vai terminar o ano com alta de 8,13%, em vez dos 8,20% estimados na semana anterior. A aposta para 2016, contudo, permanece em 5,60%, longe da meta de 4,5% perseguida pelo Banco Central. A previsão para o desempenho da economia este ano parou de piorar também após 14 semanas consecutivas de queda nas expectativas para o PIB. A revisão ocorre após a divulgação do IPCA de março, na quarta-feira passada, que subiu 1,32%, um pouco menos que o 1,38% esperado pela média das projeções colhidas pelo Valor Data. Essa foi a maior variação para o mês desde 1995, quando avançou 1,55%. Em 12 meses, o índice oficial de inflação subiu 8,13%, a maior alta nesta comparação desde dezembro de 2003. Para Cristiano Oliveira, economista-chefe do banco Fibra, a leve queda na previsão para a inflação deste ano está associada somente à surpresa com o índice do mês passado, e não embute uma melhora das perspectivas para os próximos meses. “Foi muito mais um ajuste automático do que uma revisão de estimativas. Por isso o efeito ocorreu somente nas expectativas para 2015″, diz Oliveira, que trabalhava com aumento de 1,34% para o indicador de março. Como o desvio em relação ao resultado foi pequeno, o economista não alterou sua previsão de 8,3% para o avanço do IPCA neste ano. Oliveira observa, no entanto, que o desaquecimento mais rápido do mercado de trabalho pode levar a inflação a registrar alta pouco menor que a prevista atualmente em 2015, efeito que também será o principal vetor de desaceleração para o indicador em 2016. No cenário do Fibra, o IPCA vai ceder para 5,20% no próximo ano.
A descompressão da expectativa inflacionária para os próximos 12 meses, porém, ainda não reflete essa avaliação, mas sim a saída da conta dos primeiros três meses de 2015, que registraram inflação mensal acima de 1,2% devido aos reajustes de preços administrados. “Isso tem mais a ver com a movimentação da janela [de tempo]“, diz André Muller, da Quest Investimentos. Em suas estimativas, o IPCA em 12 meses chegará a 5,7% em março do ano que vem, depois de ter encerrado 2015 em 8,2%. Nas últimas três semanas, os analistas de mercado reduziram as previsões para o superávit primário do próximo ano, distanciando-se da expectativa do governo, que prometeu entregar uma economia de 2% do PIB para pagar a dívida pública. O boletim Focus de ontem mostrou que a mediana das estimativas para o primário de 2016 caiu de 1,8% para 1,75% no fim de março e de 1,75% para 1,7% no início de abril. A expectativa para 2015 também está aquém da “meta” do governo, de 1,2% do PIB, mas se estabilizou em 0,9%.
Ibre-FGV vê índice acima do centro da meta definida pelo BC até 2017
Por Robson Sales | Do Rio
Para os pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV) o índice oficial de inflação não deve cumprir a meta até 2017. Na avaliação dos economistas do Ibre, o IPCA será pressionado pelo câmbio ao longo do ano e pode terminar 2015 em alta de até 8,6%. "É preciso um choque de expectativa, ou uma valorização cambial que não está no horizonte, para o índice ficar na meta de 4,5%", afirmou a economista Silvia Matos.
Para este ano, no entanto, o principal impacto deverá ser mesmo o reajuste dos preços monitorados: "O realismo tarifário explica bastante dessa recente revisão dos indicadores", afirmou Salomão Quadros, responsável pelos índices de preços da FGV.
Segundo a análise do Ibre, o aumento da fragilidade do mercado interno deverá impedir a recuperação da economia brasileira no curto prazo: há uma contração dos investimentos e um freio do consumo das famílias. O PIB, segundo Silvia, deve fechar o ano em queda de 1,2%. Para o economista Aloisio Campelo, "não há nenhum sinal de recuperação, o que tende a ter uma retroalimentação na desaceleração da economia".
Os economistas projetam redução da renda familiar de 0,6% em 2015 e também estimam que a taxa de desemprego calculada pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME), que mede o mercado de trabalho nas grandes cidades, será de 6,2%. Medida pela Pnad Contínua, a taxa ficará em 7,7%. Para o economista Samuel Pessôa, "do ponto de vista doméstico há enorme dificuldade da recuperação da economia".
"Apesar de todo esse cenário complicado, a gente não resolveu a inflação, a gente não resolveu o ajuste fiscal", afirmou Armando Castellar. "O ajuste externo ainda não está acontecendo. Talvez o cenário, que já é complicado, tenha que ser ainda mais complicado", completou o economista da FGV.
"Outra característica importante do mundo moderno é o fortalecimento do dólar", afirmou José Julio Senna durante o seminário. "E os ciclos tendem a ser longos, esse aqui ainda é o começo de uma tendência de alta. É muito pouco provável que a gente esteja no final de um ciclo", avaliou. Para o grupo do Ibre, a moeda americana deve subir para R$ 3,40. Na avaliação do especialista, "há um desequilíbrio na recuperação econômica, os Estados Unidos estão mais fortes que o restante do mundo, e isso deve persistir", afirmou Senna.
Durante o seminário realizado na sede da FGV, os economistas do Ibre também indicaram que o superávit este ano deve chegar a 0,7% do PIB, abaixo da perspectiva para 2016, que é de 1,2%. Silvia Matos, no entanto, fez um alerta: "Sem crescimento, realmente é muito difícil ampliar o superávit". A economista acredita que o prejuízo nas transações comerciais será menor este ano.
S&P mantém grau de investimento de SP e MG
Por Tainara Machado | De São Paulo
A agência de classificação de risco Standard & Poor's reafirmou a nota de crédito de São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina em "BBB-", uma nota acima do grau especulativo. Já Rio e Paraná perderam o grau de investimento pelo desempenho fiscal frustrante em 2014, segundo a S&P.
Em relatório, a agência afirmou que manteve a nota "BBB-" na "expectativa de que o governo continue a controlar a despesa operacional e os gastos com investimentos em meio a um ano de recessão, ao mesmo tempo em que gradativamente reduz seu endividamento".
De acordo com as projeções da S&P, o superávit operacional de São Paulo deve diminuir de 8% para 6% da receita entre 2014 e 2015, já que é pouco provável que o Estado consiga manter a arrecadação extraordinária obtida no ano passado com o Programa Especial de Parcelamento. A S&P projeta elevação de 3% a 4% para a receita em termos nominais, abaixo da inflação de 7,9% projetada para o ano. No entanto, a agência espera que os gastos com investimento sejam reduzidos, o que deve diminuir o déficit após as despesas de capital. De resultado negativo de 1%, a S&P espera estabilidade em 2015.
Minas também deve reduzir investimentos. Depois de déficit de 3,5% em 2013, considerando os gastos de capital, o Estado reduziu o resultado negativo para 0,75% da receita, já que os desembolsos de empréstimos foram atrasados durante o ciclo eleitoral. Os investimentos, que superaram 5% da receita nos últimos anos, devem cair abaixo desse nível, resultado do ajuste fiscal em curso no plano estadual. A nota de Santa Catarina também foi mantida em "BBB-", que reflete a expectativa de que o Estado "vai continuar a registrar resultados fiscais adequados".
Entre os rebaixados, a S&P cortou a nota do Rio de "BBB-" para "BB+", com perspectiva estável. Segundo a agência, a piora reflete a deterioração da situação fiscal do Estado a partir de 2012. No caso do Paraná, que também teve a nota reduzida de "BBB-" para "BB+", a perspectiva é negativa, já que ainda não estão claras as políticas a serem adotadas para melhorar a liquidez e a posição financeira do Estado nos próximos dois anos.