Odebrecht reclama da paralisação dos inquéritos da Lava-Jato ao STF

 

Procuradores e delegados tentam marcar reunião para aparar arestas

Jailton de Carvalho, Carolina Brígido e Juliana Castro

opais@oglobo.com.br

Crise. José Eduardo Cardozo tentou, sem sucesso, reunir Janot e Daiello, da PF

Andre Coelho/19-02-2015

Escândalos em série

BRASÍLIA e rio

Procuradores e delegados da Polícia Federal responsáveis pela Operação Lava-Jato estão tentando marcar uma reunião para amanhã com o objetivo de aparar arestas e estabelecer novo cronograma de trabalho. Mas o clima ainda é tenso entre as duas partes. Ontem à tarde, a assessoria da Polícia Federal informou que a reunião ainda não está confirmada. Na semana passada, o ministro Teori Zavascki, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu interrogatórios de deputados e senadores que vinham sendo conduzidos pela Polícia Federal.

A defesa da construtora Norberto Odebrecht enviou ao STF ofício reclamando da decisão do ministro Teori Zavascki de adiar os depoimentos marcados para a semana passada na PF. O diretor da Odebrecht Alexandrino Alencar teve a oitiva adiada e se sentiu injustiçado. Queria prestar logo os esclarecimentos. O depoimento dele servirá para instruir investigação sobre o ex-deputado João Alberto Pizzolatti (PP-SC).

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu a interrupção dos depoimentos porque considerou que delegados teriam se precipitado. Para procuradores da Lava-Jato, interrogatórios de investigados só devem ocorrer depois dos depoimentos de testemunhas e da conclusão da coleta de provas, ou seja, na fase final da investigação. Eles dizem que depoimentos em início de inquérito costumam ter pouca eficácia. Os investigados, em geral, negam as acusações, e a polícia não tem como explorar eventuais contradições dos suspeitos.

Os inquéritos da Lava-Jato que envolvem políticos estão praticamente parados. A crise é tão grave que, na semana passada, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, tentou várias vezes reunir Janot e o diretor da PF, Leandro Daiello, para discutir o assunto, mas não conseguiu.

Após o início da queda de braço entre PF e MPF, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) lançou semana passada a campanha "Deixa a PF trabalhar", em resposta ao procurador Rodrigo Janot. A associação pediu que a população envie vídeos de apoio ao trabalho dos policiais federais. Ontem, os primeiros começaram a ser postados na página da ADPF no Facebook, curtida por 157 mil pessoas.

No documento enviado ao STF, a advogada da Odebrecht, Dora Cavalcanti, diz temer que o MPF passe a comandar as investigações: "Com todo o respeito, os peticionários confiam que a providência requerida pela Procuradoria não implicará submissão da autoridade policial a eventuais (e de todo inesperados) desígnios de se conduzir as diligências investigativas com finalidade diversa da obtenção da verdade".