Senadores do pt pressionaram policiais para serem ouvidos logo

Mpf e pf trocam acusações sobre ordem dos depoimentos de políticos

Vinicius Sassine

vinicius.jorge@bsb.oglobo.com.br

Embate. Janot: tramitação suspensa

PF. Daiello: recado sobre depoimentos

Jorge William/11-03-2015

Ailton de Freitas/27-05-2013

Escândalos em série

BRASÍLIA e CURITIBA

O interrogatório de políticos na fase inicial dos inquéritos da Lava-Jato detonou a crise entre a Procuradoria Geral da República (PGR) e a Polícia Federal. Procuradores e delegados discordaram sobre o melhor momento de ouvir deputados e senadores acusados de receber dinheiro desviado da Petrobras. Dois episódios contribuíram para a decisão do procurador-geral, Rodrigo Janot, de pedir ao Supremo Tribunal Federal que suspendesse a tramitação dos inquéritos: a pressão de assessores de políticos junto à PF para agilizar os depoimentos de pelo menos dois investigados, e a suposta existência de perguntas e respostas prontas num desses interrogatórios, antes da chegada de um procurador da República para participar do depoimento.

O GLOBO apurou que a pressão partiu de assessores dos senadores petistas Humberto Costa (PE), líder do partido no Senado, e Gleisi Hoffmann (PR). A PF reclama da intromissão dos procuradores e alega que pretende apenas investigar, como sempre fez.

A assessoria de imprensa de Humberto Costa negou ter havido pressão de assessor, mas admitiu que o advogado do petista, Rodrigo Mudrovitsch, procurou a PF pedindo que fosse marcada a data do depoimento, que acabou sendo feito em 24 de março. O depoimento durou quatro horas e foi acompanhado por uma delegada da PF e dois procuradores da República.

O caso envolvendo a suposta existência prévia de perguntas e respostas é o de Gleisi. Quando a senadora chegou para depor, o delegado da PF já tinha um papel com perguntas e respostas. Não está claro quem produziu o material. Todo depoimento tem um delegado e de um procurador.

A PF não comentou oficialmente o episódio, mas policiais afirmam que não houve favorecimento aos investigados e contaram que um delegado se limitou a preparar um roteiro de perguntas, que não foi mostrado a Gleisi. Esse policial afirmou que, se o procurador achou que havia irregularidade, deveria ter pedido investigação contra o delegado, sob pena de prevaricação.

A assessoria de Gleisi informou que nenhum assessor pediu favorecimentos à PF e que não houve apresentação prévia de perguntas. No total, 46 pessoas já foram ouvidas pela PF, inclusive Gleisi.

A PGR pediu a suspensão de depoimentos de políticos investigados ao ministro do STF Teori Zavascki, relator dos processos da Lava-Jato, por achar que os depoimentos colhidos não obedeciam a uma coordenação lógica, e investigados estavam sendo ouvidos antes de testemunhas. A ideia da PGR é restabelecer uma coordenação mais produtiva dessas diligências.

A PF alega que pessoas ligadas ao gabinete de Janot telefonaram para políticos convidando para depor na PGR e não na polícia. O diretor-geral da PF, Leandro Daiello, teria recebido da PGR um recado de que os políticos não queriam depor na PF. Advogados dos políticos dizem que apenas foi oferecida a possibilidade de o investigado escolher onde falaria.

O delegado Eduardo Mauat, da PF, cobrou explicações de Janot ontem. Para ele, Janot tolheu as investigações policiais ao pedir a suspensão dos depoimentos.