O silêncio do empreiteiro em busca da delação

Eduardo Militão

Correio braziliense, n. 19971, 05/05/2015. Política, p. 2

Após passar seis meses preso, o presidente da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa, apontado como uma espécie de coordenador do “clube” de empreiteiras do cartel que pagava propina para conseguir obras da Petrobras, promete arrastar novos políticos para o furacão da Operação Lava-Jato. Solto na semana passada, Pessoa negocia, há meses, a delação premiada. Mas, para conseguir o benefício, que pode livrá-lo de uma pena dura, o empreiteiro precisa aportar fatos novos à investigação. Por essa razão, ficou em silêncio, na tarde de ontem, diante do juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, Sérgio Fernando Moro. “Estamos coletando provas e entendemos que, agora, não era o momento de falar”, resumiu o advogado dele, Alberto Zacharias Toron, ao Correio após a oitiva.

Na semana passada, o defensor disse que as negociações para uma delação continuam, apesar de Pessoa ter sido solto por ordem da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). Ontem, Toron não quis tocar no assunto. Até o momento, mais de 10 delações já foram fechadas com o Ministério Público na Operação Lava-Jato, e outras ainda estão a caminho (veja quadro).

O presidente da UTC é acusado de pagar propinas para obter contratos superfaturados na Petrobras, valores que seriam destinados a funcionários da estatal, a políticos e a partidos. De acordo com Augusto Mendonça, executivo da Setal, Pessoa coordenava o cartel de empreiteiras que loteava licitações na petroleira. Ontem, executivos da Camargo Corrêa, um empresário e três pessoas apontadas como laranjas ou mulas do esquema também prestaram depoimento.

As várias rodadas de negociação, no entanto, não se concretizaram ainda com Pessoa. Parte das declarações do executivo deveria ser homologada no STF, por mencionar políticos com foro privilegiado, como deputados e senadores. Os investigadores da Operação Lava-Jato aguardam as informações do executivo com cautela.

Outra delação que está em negociação e deve chegar ao Supremo por envolver nomes de políticos é a do transportador de dinheiro Rafael Ângulo Lopes. Ele fazia os serviços de entregas de valores para o doleiro Alberto Youssef. Em depoimento à Justiça, o doleiro afirmou que foi Ângulo quem levou recursos para o senador Fernando Collor, do PTB-AL. O parlamentar nega participação em irregularidades, mas se recusa a explicar, porém, por que sua conta-corrente recebeu recursos de Youssef, com base em documentos bancários apreendidos pela Polícia Federal.

Ontem, foi tomado depoimento de outros executivos acusados de pagar propina. O presidente da Camargo Corrêa, Dalton Avancini, e o vice-presidente da empreiteira, Eduardo Leite, fecharam acordo de delação premiada e confirmaram as acusações que fizeram à procuradoria. Leite admitiu que a empresa pagou R$ 110 milhões em subornos para obter contratos na Petrobras.

Propina
Em um dos depoimentos de ontem, o presidente do conselho de administração da Camargo Corrêa, João Ricardo Auler, disse que, em 2006, o deputado José Janene (PP-PR), já falecido, pediu doações eleitorais na presença do então diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa. Depois, em 2008, com Youssef, o pedido foi de propina. Após vários pedidos — todos negados, segundo o executivo —,o então deputado “invadiu” a sede da Camargo Corrêa em 2009, ocasião em que brigou com a secretária de Auler.

O executivo afirmou ao juiz Sérgio Moro que, “para ficar livre” do político, encaminhou-o para Leite e Avancini, que cuidavam do “tema Petrobras” na empreiteira. Entretanto, disse que não se interessou por saber se houve ou não pagamentos de propina. Também não orientou Leite e Avancini a pagar ou a deixar de pagar os subornos cobrados por Janene.

Outro suspeito de participação no esquema, o irmão do ex-ministro das Cidades Mário Negromonte disse que recebia R$ 7 mil por mês para fazer serviços à família de Youssef, como buscar pessoas no aeroporto, levar carros para o conserto e fazer pagamentos em espécie em agências bancárias. Adarico Negromonte é acusado de ser um dos transportadores de dinheiro do doleiro. No depoimento prestado ontem, Adarico negou irregularidades, mas admitiu que, em algumas ocasiões, chegou a sair do escritório de Youssef com até R$ 30 mil em espécie. Adarico disse que perguntou a Rafael Ângulo por que não eram feitas transferência bancárias, mas foi agredido fisicamente por causa disso. “Levei um pontapé. (Ângulo) Era muito grosso e estúpido.”



O que eles revelaram
Confira o que alguns investigados na Lava-Jato disseram às autoridades

>> Quem já tem a delação premiada homologada pela Justiça



Alberto Youssef, doleiro: denunciou políticos, empreiteiros e funcionários da Petrobras



Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras: apresentou denúncias contra políticos, empreiteiros e funcionários da estatal



Pedro Barusco, ex-gerente da Petrobras: delatou a atuação do ex-diretor Renato Duque e informou contas no exterior que recebiam propinas, além de subornos nos anos 1990, na SBM e na operação de navios Augusto Mendonça, executivo da Toyo Setal: revelou a o cartel de empreiteiras da Petrobras

Júlio Camargo, executivo da Toyo Setal: delatou operações de pagamentos e recebimentos de subornos

Dalton Avancini, presidente da Camargo Corrêa: detalhou a atuação do cartel de empreiteiras e a atuação da construtora da qual faz parte no esquema

Eduardo Leite, vice-presidente da Camargo Corrêa: também mostrou como funcionava o cartel e a atuação da Camargo Corrêa e da Odebrecht no esquema

Lucas Pacce, operador da doleira Nelma Kodama: repassou informações sobre bancos e operações financeiras, inclusive da ex-chefe

Shinko Nakandakari, engenheiro acusado de ser um dos operadores do esquema: revelou que a Galvão Engenharia pagou propina para conseguir obras

Quem prestou colaboração espontânea

Gerson Almada, vice-presidente da Engevix: disse que o ex-ministro José Dirceu fez “lobby internacional” para a empreiteira e que pagava propina para lobista ligado ao PT

Carlos Alberto Pereira da Costa, ex-funcionário de Youssef: deu detalhes sobre o funcionamento da “lavanderia” do doleiro


>> Quem negocia o benefício da delação premiada

Ricardo Pessoa, presidente da UTC

João Ricardo Auler, integrante do Conselho de Administração da Camargo Corrêa

Rafael Ângulo, funcionário de Youssef


>> Estuda algum tipo de colaboração. André Vargas, ex-deputado federal