Cunha volta a ser alvo de protestos

 

Presidente da câmara é hostilizado por manifestantes em joão pessoa e natal

Ilana Almeida* e Ricardo Araújo*

opais@oglobo.com.br

 

João Pessoa e Natal

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), foi recebido com protestos nas assembleias legislativas de João Pessoa e de Natal, onde esteve ontem com seu projeto de Câmara Itinerante. Assim como aconteceu em São Paulo e Porto Alegre nas últimas semanas, Cunha foi hostilizado por movimentos sociais e sindicais, e acabou criando um conflito com o governo da Paraíba ao acusar o governador Ricardo Coutinho (PSB) de omissão em relação à segurança durante a sessão legislativa.

Em João Pessoa, manifestantes de movimentos sindicais e LGBT ocuparam as galerias do plenário da Assembleia Legislativa durante a visita de Cunha. Uma porta de vidro foi quebrada. Os militantes promoveram um apitaço, protestaram com bandeiras, faixas e cartazes com frases contra o parlamentar e gritaram "Fora Cunha". Os gritos foram ouvidos antes da fala prevista do presidente da Câmara e durante o discurso do deputado federal Hugo Motta (PMDB-PB).

Assembleia recusa ação da polícia

A sessão chegou a ser suspensa para negociação com os movimentos. Três representantes do protesto foram chamados para usar a tribuna, mas panfletos continuaram a ser jogados no plenário. Um ovo também foi arremessado contra Cunha, mas não chegou a acertá-lo.

A Polícia Militar e o Batalhão de Choque foram acionados para esvaziar as galerias, mas a Assembleia decidiu não deixá-los entrar, após manifestantes escreverem com batom no vidraça: "Se a polícia entrar, o vidro cai''.

Cunha acabou não discursando. Ele deixou o plenário e atribuiu aos deputados Anísio Maia (PT-PB) e Estela Bezerra (PSB-PB) a "orquestração" do protesto:

- Essa foi uma ação coordenada pelo deputado do PT, Anísio Maia, que trouxe manifestantes da CUT, e da deputada Estela, que parece que é ligada ao movimento LGBT. Esses dois parlamentares introduziram os manifestantes na Casa e, inclusive, a deputada Estela impediu que a polícia viesse dar segurança como foi solicitado pelo presidente - acusou Cunha.

O presidente da Câmara também criticou o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, por omissão.

- Acho muito estranho que o governador não tenha garantido a segurança de um evento político e, também, uma segunda casa para o evento, demonstrando que aqui não se respeita, como em Brasília se respeita, a independência dos Poderes. É uma omissão do governador do estado - afirmou.

O governo da Paraíba rebateu o deputado em nota oficial, na qual lamentou que o presidente da Câmara tenha ido ao estado para "partidarizar uma visita que se esperava produtiva na construção de uma agenda importante" para o país.

"O governo da Paraíba tem o compromisso, dentro da legalidade e do dever constitucional, de garantir a segurança de todo e qualquer cidadão que esteja no Estado, mas não tem o poder de conter descontentamento e insatisfações populares contra a postura, o perfil ou o histórico do presidente da Câmara Federal", disse a nota.

O deputado Anísio Maia negou que tenha influenciado os manifestantes:

- O povo veio espontaneamente expressar sua indignação contra um presidente da Câmara que está ignorando uma petição com milhões de assinaturas defendendo uma mudança na política brasileira. Ele ignora o povo porque tem medo do povo.

A deputada Estela Bezerra (PSB) chamou de "injúrias" as declarações de Cunha e prometeu acioná-lo na Justiça.

Depois dos protestos em João Pessoa, Cunha despistou os manifestantes que o aguardavam desde o início da tarde de ontem, em Natal, e entrou na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte por um acesso privativo no estacionamento dos parlamentares. Na entrada principal do prédio, um grupo de manifestantes, formado basicamente por estudantes universitários, o aguardava portando faixas e cartazes e gritando palavras de ordem contra o político.

Com todos os assentos da galeria ocupados por correligionários, lideranças políticas e curiosos, os manifestantes foram impedidos de entrar no prédio, mas continuaram a manifestação na área externa. Casais homoafetivos aproveitaram a passagem do presidente da Câmara dos Deputados e se beijaram em frente à entrada principal da Assembleia Legislativa. Cunha se mostrou contrário à aprovação do projeto de lei que torna a homofobia um crime. Nenhum ato de violência ou vandalismo foi registrado. (* Especial para O GLOBO )