Valor econômico, v. 15, n. 3738, 17/04/2015. Opinião, p. A12

 

Oposição passa a flertar com a proposta de impeachment

 

Durou pouco a esperada trégua ao governo trazida pela transferência da coordenação política para o vice-presidente Michel Temer, após uma série de derrotas no Congresso e de relações tempestuosas com os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros. Com o relativo refluxo das manifestações de rua e com as medidas econômicas encaminhadas, havia um certo clima positivo para que o Planalto pudesse voltar à gestão cotidiana. Acusações de que a Corregedoria Geral da União evitou agir antes das eleições ao receber denúncia de corrupção na Petrobras, a prisão do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, e, ainda, a decisão do Tribunal de Contas da União de ouvir membros do governo anterior sobre "pedaladas fiscais", que pode culminar na atribuição de crime de responsabilidade, incitaram novas movimentações contra a presidente Dilma Rousseff.

Os líderes das mobilizações públicas contra o governo afinaram o discurso em torno da luta pelo impeachment e deram novos passos para isso. Sob risco de dispersão dos adeptos, diante da ausência de resultados concretos dos atos de protesto, os grupos que os dirigem se viram diante de um impasse. Eles se opuseram à participação de políticos nas manifestações, mas, a rigor, não há forma de obter o que pretendem, dentro do regime democrático, sem o apoio e a iniciativa do Congresso, o poder capaz de pedir a destituição da presidente.

Nos últimos dias, alguns desses líderes da rebelião das ruas visitaram o Congresso tentando obter apoio para sua causa e fizeram algum progresso, ao impulsionar os tucanos e aliados, como o DEM, para mais perto do início de uma batalha parlamentar pelo impedimento. O senador Aécio Neves, até então mais um espectador interessado do que um adepto ativo, acionou juristas para elaborar pareceres sobre as possibilidades legais de apear Dilma do poder. Nisso, fez coro à bancada do partido na Câmara, embora em discordância com o ex-presidente Fernando Henrique.

O cenário político continua extremamente movediço e propício a surpresas. Os tucanos parecem estar mudando de estratégia - de coadjuvantes em um cenário de desgaste gradual e seguro da presidente Dilma e do PT ao longo de quatro anos para atores de uma arriscada e contundente manobra para derrubá-los. Existe ainda, é claro, vasto espaço para indecisões e recuos, e o PSDB não se tornou conhecido pela ousadia. Mas a pesquisa do Datafolha da semana passada, mostrando que 63% dos entrevistados eram favoráveis à saída de Dilma, contribuiu decisivamente para agitar os tucanos.

Aos objetivos políticos do PSDB não agradou também a incipiente reanimação do governo com as ações de Temer para apaziguar o PMDB e o fim das desavenças internas sobre a correção de rumos na economia, que criaram um ponto de apoio, ainda frágil, para que Dilma recobrasse a capacidade de iniciativa que não teve nos cem dias do segundo mandato. Com a insatisfação de grande parte da população, mostrada nas pesquisas e parcialmente nas ruas, o partido busca abrir janelas de oportunidade para desestabilizar o governo.

Com o PSDB e aliados minoritários ainda incapazes de ferir o governo por suas próprias forças, o PT acuado por denúncias e com menos poder no Congresso, e a caixa de Pandora da Operação Lava-Jato aberta, o papel político decisivo para o destino do governo, para um lado ou outro, está cada vez mais nas mãos do PMDB. Há interlocução direta de Temer com os revoltosos do PMDB, enquanto que o apoio de boa parte da base aliada dependerá da capacidade do vice-presidente da República de diminuir a tensão entre lideranças do Congresso e governo.

Eduardo Cunha já deu sinais promissores a Temer, enquanto Renan, que teve um aliado desalojado do ministério do Turismo, indica que, depois de rejeitar a MP sobre mudanças nas desonerações, continuará colocando obstáculos ao Planalto. Ele poderá se dedicar agora à reprovação no Senado do indicado de Dilma para a vaga do ministro Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal, o advogado Luiz Edson Fachin. Após 8 meses, em meio a um turbilhão político, a presidente escolheu um candidato que fez campanha para ela na eleição de 2010, é bastante identificado ao PT - e mais uma fonte de dissabores imediatos.