Brasil vai frear América Latina, alerta FMI
Desaceleração da economia do país afetará o crescimento da região, aponta relatório do organismo
WASHINGTON e BRASÍLIA
A recessão brasileira em 2015 deixará a América do Sul no vermelho e a América Latina próxima da estagnação, revela o relatório "Panorama da Economia Mundial", divulgado ontem pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Na avaliação, o Brasil registrará retração de 1% este ano, como antecipado na sexta-feira em outro documento do FMI. De acordo com o texto, a projeção para o Brasil engloba o estouro da meta de inflação (7% pelo IPCA este ano) e a probabilidade de turbulência financeira. Além disso, o risco de racionamento de água e energia e os desdobramentos da investigação da Petrobras acentuam os problemas econômicos.
- Observamos dados muito fracos no fim de 2014 e no início de 2015, mais fracos que o esperado - explicou Oya Celasu, economista do Departamento de Pesquisas do FMI.
O desempenho do país será a principal contribuição negativa para a expansão latino-americana - 0,9%, contra 1,3% em janeiro - e a contração de 0,2% dos países sul-americanos. A América Latina só não será menos dinâmica em 2015 do que o bloco das ex-repúblicas socialistas soviéticas, que, devido à forte recessão russa (-3,8%), vai encolher 2,6%. Entre os principais motores globais (países ricos, Brics e emergentes asiáticos), Rússia e Brasil terão os piores desempenhos anuais, prevê o FMI. Este será o quinto ano seguido de desaceleração do crescimento da América Latina.
LEVY: PROJEÇÃO REFORÇA NECESSIDADE DE AJUSTE
Para os economistas do Fundo, não há "impulsos aparentes para uma retomada a médio prazo", e a região continuará sendo castigada pelo baixo preço das commodities e pelo "reduzido espaço para políticas", devido à deterioração do quadro fiscal em muitas economias, à perda de vigor dos investimentos e ao aperto das condições financeiras globais.
Segundo o economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, o lado positivo da situação brasileira é que as medidas necessárias para a correção de rumo foram anunciadas e, se implementadas, resgatarão a confiança do empresariado, principal trava à recuperação do Brasil.
- Os problemas dos últimos anos pesaram principalmente sobre a confiança empresarial, o que afetou os investimentos - avaliou Blanchard. - Com a confiança retornando, por causa das medidas adotadas, a situação vai se inverter e pode-se ser mais otimista sobre o futuro.
O ajuste fiscal é uma medida correta, assim como as ações de política macroeconômica em geral neste início de segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, avaliou Blanchard. Num primeiro momento, o aperto nas contas públicas terá forte impacto contracionista. Mas sua implementação é crucial para resgatar a credibilidade do gerenciamento da economia brasileira, afirmou ele:
- No front macro, as medidas adotadas são as corretas. Mas claramente o Brasil tem problemas além da questão macro. Tem problemas de corrupção, que conhecemos e que, esperamos, serão resolvidos. E há todo tipo de reformas estruturais que são igualmente necessárias.
Para o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o relatório do Fundo chama a atenção para a importância de levar a cabo o ajuste:
- Acho que é uma mensagem bastante consistente dessa estratégia da presidente Dilma de a gente acertar as coisas agora, o mais rápido possível, no Congresso, e daí ter as bases para fazer a retomada do crescimento, inclusive da agricultura, que acho que é um dos setores que vão ser bastante importantes este ano - afirmou.
Em entrevista a blogueiros do Planalto, Dilma rebateu as críticas sobre um suposto excesso de poder do ministro da Fazenda. "Não tem a menor correspondência com a realidade dizer que Levy é o verdadeiro presidente da República. Para ser ministro da Fazenda e para defender medidas políticas, ele depende da Presidência da República. Não pode defender nada com que a presidência da República não concorde. Ele faz porque o governo dá respaldo."
O panorama de curto prazo, acrescenta o FMI, não é animador, já que os exportadores de Commodities podem se enfraquecer ainda mais diante de choques como uma desaceleração mais aguda do investimento na China. Se esse cenário persistir a médio prazo, a América Latina, que já sofre com gargalos de infraestrutura, custo de mão de obra e baixa produtividade, será mais afetada. O FMI também reforçou a necessidade de que os países realizem reformas estruturais.
PAÍSES RICOS SE RECUPERAM
A expansão de países emergentes e em desenvolvimento deverá ser de 4,3% este ano, contra 4,6% em 2014. Brasil, Rússia e China puxam o resultado para baixo. Já África do Sul (2%, após 1,5% ano passado) e Índia (7,5%, contra 7,2% em 2014) estão acelerando. "A retomada dos mercados emergentes deverá dirigir a recuperação do crescimento global em 2016", projeta o FMI.
Os países ricos, por sua vez, estão se recuperando mais fortemente, contribuindo para que as projeções do crescimento mundial fossem mantidas este ano e em 2016. O destaque entre as nações avançadas serão os EUA, cujo PIB deve subir 3,1% em 2015 e 2016 com a demanda doméstica ajudada pela queda nos preços de combustíveis. Já para a zona do euro, que teve recessão em 2013 e ficou quase estagnada em 2014, o FMI projeta expansão de 1,5% este ano e de 1,6% em 2016. Mas adverte que, a partir de 2017, os países ricos também vão se deparar com gargalos e desacelerar. Os principais entraves são o alcance do teto de expansão e o envelhecimento da população.