Título: Mulheres de garra e incansáveis
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Fonte: Correio Braziliense, 17/08/2011, Cidades, p. 29

Marcha das Margaridas reúne histórias de milhares de brasileiras que encaram o trabalho duro no campo. Elas vieram de muito longe e estão na capital do país para batalhar por melhorias que podem chegar às áreas rurais. Querem ser recebidas pela presidente Dilma Rousseff » Leilane Menezes

Foram necessárias horas, até mesmo dias, de viagem para chegar a Brasília. Elas vieram de todos os cantos do país. Desceram de ônibus ¿ 1.520 no total ¿ trazendo consigo uma parte da terra onde nasceram. Sacolas imensas de plástico, recheadas com roupas simples, equilibravam-se sobre as cabeças das mulheres tão acostumadas com o peso da vida. Quando as trouxas ganhavam o chão do acampamento, em pleno centro de Brasília, os cabelos recebiam cobertura de chapéus de palha, femininos e com acabamento em flor.

Ontem, houve um desfile de peles queimadas de sol, de sorrisos abertos e iluminados, porém carentes de cuidado, no Parque da Cidade. Ali, hospedam-se as participantes da Marcha das Margaridas, prevista para ocorrer hoje, na Esplanada dos Ministérios. Mais de 70 mil mulheres são esperadas para o maior encontro nacional de trabalhadoras rurais. Elas querem propor ações voltadas ao bem-estar de quem tira o sustento do campo.

As manifestantes estão acampadas no Parque da Cidade. É o quarto ano que elas fazem o protesto em Brasília

O hotel improvisado era feito de tendas brancas de plástico, erguidas nos estacionamentos de 1 a 3. Algumas pessoas trouxeram colchões, outras contaram com a sorte. Em tempos de alta temperatura e baixa umidade, o calor não assustou. Pelo contrário. Houve quem reclamasse de frio. O cheiro dos banheiros químicos não atrapalhou a animação. Rostos masculinos também estavam por lá, mas sem tomar a frente do movimento.

As mulheres chegaram em ônibus vindos de todo o país. Munidas de bandeiras, sairão hoje às ruas da capital

Cada margarida conta um pouco da própria história sem precisar falar. Basta observar de perto as marcas do tempo. Pintadas de vermelho, as unhas de Maria de Jesus Quinto Teixeira, 54 anos, emprestam leveza às mãos marcadas pelo trabalho. Ela é quebradeira de coco babaçu, em Esperantinópolis, no Maranhão. Levou mais de 48 horas em um coletivo para chegar ao Distrito Federal.

Vida difícil A maranhense começou no ofício aos 7 anos, repetindo assim a sina dos próprios pais. Nunca frequentou escola. "A vida ensina", ela diz. Maria casou-se aos 16. Teve o primeiro filho aos 19. Morou a vida inteira no mesmo lugar, uma casinha de taipa, feita de barro, palha e madeira, com energia elétrica, mas sem água encanada.

Assim que desembarcaram, as visitantes seguiram para tendas montadas no estacionamento do Parque

Mãe de 11 filhos ¿ três deles morreram ¿, Maria de Jesus ficou emocionada ao chegar à capital do país. "Até os 28 anos, eu só vivia para parir e dar de mamar. Não sabia nem que eu era mulher. Minha vontade era a do meu marido. Estar aqui hoje é renascimento". "Se soubesse como era a vida, tinha tido menos filhos, uns três só, para poder criar mais fácil", refletiu. Todos os filhos de Maria estudaram até chegar à faculdade. "Quebrei muito coco e comi muito arroz com ovo para eles chegarem até aí".

Com 20 anos, Maria aprendeu a ler e a escrever. O avô ensinou as letras e os números. Assim, deu-lhe de presente uma passagem para o mundo. Depois disso, Maria envolveu-se com movimentos sociais. Quis educação, saúde, ser amada e respeitada. Hoje, planta macaxeira, feijão, melancia e manga. "Tem manga de todo tipo. Esse povo daqui precisava ver". Maria de Jesus quer falar com a presidente da República sobre agrotóxicos, trabalho escravo e infantil, além de Bolsa Família. "Nossa razão de existir é lutar", explicou.

Evolução Ela não está sozinha nas reivindicações. Mais de 70 mil vozes somam-se à sua. Entre elas, a de uma verdadeira Margarida. Margarida Santos, 52 anos, veio de Pernambuco. Demorou três dias para chegar. Ela quer dizer à presidente Dilma Rousseff e ao povo de Brasília: "Eu sou gente". Margarida é trabalhadora rural desde os 8 anos. As mãos pequenas de criança acostumaram-se a semear milho e feijão. Aprenderam também que os frutos vêm do esforço. "Meus filhos cresceram ajudando a criar galinha e gado. Nenhum fez faculdade. Precisamos de dia melhores", disse.

Já a piauiense Luzia da Rocha Miranda, 51 anos, viajou 24 horas para estar aqui. Desde os 16, ela trabalha no campo. "Tudo é difícil para quem trabalha na roça. Mas a gente não é de lamentação. O que se perde em um ano, se recupera no outro, na lavoura e na vida", ensinou. Luzia dedicou a vida toda à plantação de arroz, na beira de um rio. Hoje, frequenta a escola. Orgulha-se de aprender a operar o computador. "Quem transformou a minha vida foi o movimento social. Quero vencer".

Luzia veio a Brasília pela primeira vez. Gostou do que viu. Mas achou a cidade, literalmente, fria. "Tá fazendo um frio danado aqui, hein?", comentou Luzia, que está acostumada a temperaturas superiores aos 35ºC. "Aqui é muito evoluído. Fiquei impressionada", elogiou. Luzia pretende guardar tudo na lembrança, para contar o que viu aos seis filhos.

Prepare-se Marcha das Margaridas Local de concentração: Parque da Cidade, próximo ao Pavilhão de Exposições. Horário: Hoje, a partir das 6h, no Parque da Cidade. Por volta das 8h30, elas devem sair em passeata rumo à Esplanada dos Ministérios, pela Via N1, onde pretendem ocupar três faixas.