O globo, n. 29830, 09/04/2015. Economia, p. 17

Marcello Corrêa

Energia contamina inflação

IPCA sobe 1,32%, pior resultado para março em 20 anos, pressionado por tarifa de luz

A inflação ao consumidor chegou a 1,32%, o pior resultado para março desde 1995, ano seguinte à implantação do Real. O resultado foi afetado principalmente pelos reajustes na conta de luz. Analistas preveem que, daqui para frente, o IPCA tende a recuar, mas o alívio virá lentamente por causa da alta do dólar. ­RIO E BRASÍLIA­ O aumento na energia elétrica provocou um verdadeiro choque na inflação. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou o mês passado em 1,32%, o patamar mais alto para um mês de março desde 1995, quando o país ainda se recuperava da hiperinflação. Mais da metade do índice (53,8%) foi resultado da conta de luz que, na média, ficou 22,08% mais cara no mês passado, segundo dados do IBGE. A segunda maior contribuição veio dos alimentos, que responderam por 22% do índice, seguido de transportes, com peso de 6,8%.

Na comparação com todos os meses do ano, a inflação de março foi a maior desde fevereiro de 2003, quando chegou a 1,57%. Em fevereiro deste ano, ficou em 1,22%. Já no acumulado em 12 meses, a taxa chega a 8,13%, mais uma vez acima do teto da meta fixada pelo governo, de 6,5%.

Para especialistas, a boa notícia é que o pior já passou, e a tendência, a partir de agora, é a inflação dar uma trégua, sobretudo por causa do comportamento da energia elétrica. O aumento de março foi resultado dos reajustes extraordinários, autorizados para cobrir custos das empresas com a crise energética. Os aumentos e a bandeira vermelha — cobrança adicional pelo uso da energia das termelétricas — levaram as contas da maioria dos consumidores às alturas.

MALDADE TODA DE UMA VEZ

Que o diga o Hugo Regufe, de 25 anos, que viu sua fatura da Light passar de cerca de R$ 80, no fim ano passado, para mais de R$ 230, em março. Em que pesem possíveis variações de consumo, o orçamento de Hugo já foi afetado pelo reajuste extra de 22,5% da Light, autorizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica ( Aneel). Sem contar a bandeira tarifária vermelha, que passou de R$ 3 para R$ 5,50. Com salário líquido de R$ 750, as contas não fecharam, e ele ajudou a engrossar as estatísticas de inadimplência.

Os aumentos da energia não vão se repetir este ano, destacam  economistas.

O Brasil já passou por momentos em que a inflação se concentrou no primeiro trimestre e desacelerou nos meses seguintes. O mais recente foi em 2003, quando a instabilidade no mercado financeiro causada pela vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2002 levou o dólar a mais de  R$ 3,90. A desvalorização do real afetou diretamente os preços, fazendo com que o primeiro  trimestre daquele ano também fosse de inflação alta. Depois, o IPCA cedeu, mas de uma forma muito mais rápida do que a esperada para este ano.

Luiz Roberto Cunha, professor de economia da PUC­Rio, chama a atenção para o fato de o choque inflacionário acontecer no início do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, que, ao contrário de 2003, herda os indicadores gerados em sua própria gestão.

LEVY: ‘TOTAL CONFORTO’

Em Brasília, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, disse que o Banco Central tem se expressado com clareza e consistência e demonstrado sua disposição de tomar medidas para combater a alta dos preços, o que dá “total conforto”.

Com menos pressão da energia elétrica, a expectativa é que a taxa de abril caia a menos da metade

de março. O Banco Brasil Plural, por exemplo, projeta 0,6%. Já o Itaú Unibanco espera desaceleração para 0,65%. Para o ano fechado, as projeções são de mais de 8%.

—A partir de agora a inflação tende a ficar parecida com a do ano passado. Mas, por conta disso, você mantém a taxa pressionada em 12 meses na casa de 8%. Fica entre 8% e 8,2% — estima Elson Teles, economista do Itaú Unibanco, destacando que suas projeções serão revisadas até o fim da semana.

Essa trajetória descendente, no entanto, depende de fatores que podem mudar até o fim do ano. O principal deles é o câmbio. Até agora, o efeito do dólar sobre a inflação foi pouco intenso, devido a fatores como a economia mais fraca e a queda do preço das commodities.

Adriana Molinari, economista da Tendências, destaca que o dólar é um dos itens a serem observados, apesar do alívio na cotação da moeda nos últimos dias.

— Nossa projeção para o câmbio passou de R$ 2,78, no início do ano, para R$ 3,06  recentemente.