Valor econômico, v. 15, n. 3732, 09/04/2015. Política, p. A8

 

Vice é tido como um especialista no diálogo

 

Por Raymundo Costa | De Brasília

 

Ricardo Botelho/Brazil Photo Press/FolhapressTemer: em sua primeira reunião como coordenador político, pactuou com líderes e presidentes de partidos governistas a defesa do ajuste fiscal

Aposta da presidente Dilma Rousseff para recompor politicamente o governo, o vice Michel Temer é considerado o homem certo no lugar certo, talvez na hora errada. O homem certo no lugar certo porque a empreitada exige uma enorme capacidade para a conciliação e o diálogo, qualidades reconhecidas de Temer. A hora pode ser errada porque o vice assume a coordenação política num momento de baixa do governo, em que a queda de prestígio da presidente ameaça seus projetos - e até seu mandato - no Congresso.

Desde o primeiro mandato Temer exerce, com discrição e eficiência, a qualidade do diálogo que tanta falta faz a Dilma, segundo aliados e desafetos políticos. Os empresários que passaram boa parte do primeiro mandato da presidente queixando-se da falta de diálogo, não tardaram a fazer um atalho pelo gabinete do vice-presidente. Até mesmo dignatários de outros países. Foi a Temer que Portugal recorreu, por exemplo, quando o governo brasileiro planejou aumentar a tributação do vinho e do azeite portugueses. O vice encaminhou a demanda ao então ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Antes de tomar posse do segundo mandato, Dilma foi aconselhada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a entregar a coordenação política para Temer, se não encontrasse alguém no PT para a empreitada. Deve ser registrado que Temer não é dos mais próximos de Lula, com quem deve estar ainda nesta semana. Em 2003, Lula vetou uma negociação conduzida pelo então ministro José Dirceu para a entrada do PMDB no governo. O ex-presidente topava o acordo, desde que não fosse com o PMDB de Temer. Já Dilma, em vez de seguir o conselho de Lula, chamou uma ala do PT para o Palácio do Planalto e deu o sinal verdade para uma operação de guerra contra o partido.

Desde então o Senado e a Câmara - comandados pelo PMDB - ditam a agenda política do país. A manobra palaciana enfraqueceu o vice no PMDB. Aumentaram, no partido, as críticas de que Temer defendia o governo no PMDB, mas não demandava os interesses do PMDB no governo. Um equilíbrio precário, que não o impediu de tentar manter abertos os canais entre o Congresso e o Palácio do Planalto. Apenas se queixou para a presidente de quer o PMDB não aceitaria mais ser chamado para resolver problemas que não ajudara a criar. Exemplo: a mudança do índice do superávit fiscal de 2014, somente aprovada pelo Congresso graças ao empenho do presidente do Congresso, o pemedebista Renan Calheiros. A presidente Dilma viajara para o exterior e deixara a tarefa com o vice Temer.

Professor de direito constitucional, 74 anos, Temer costuma contar uma história ocorrida no governo Franco Montoro, em São Paulo, para exemplificar a vocação pelo diálogo. Era secretário de Segurança Pública, quando Montoro, certo dia, o chamou para tentar resolver a ocupação de um prédio público por estudantes. Depois de uma tarde inteira de conversa, Temer arrancou dos estudantes o compromisso de que desocupariam o prédio, se fossem recebidos pelo governador. Assim foi feito. Tempos depois, Montoro voltou a chamá-lo por causa de uma outra invasão, desta vez promovida por sem-tetos. "Vai lá e faz de novo", teria dito Montoro. Temer ainda quis se esquivar, alegando que sem-teto era diferente de estudante, mas repetiu a dose, com sucesso. Conversando.

Temer foi agora o mestre de cerimônias que abriu as portas do Congresso para o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Foi o vice quem intermediou as conversas de Levy com Renan Calheiros, com o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e com o DEM, partido de oposição. Ele contabiliza a mediação como sucesso, uma vez que o presidente do Senado e o prefeito do Rio aceitaram um acordo para adiar a questão da dívida dos Estados e municípios para 2016. Na ponta do lápis são pelo menos R$ 3 bilhões que a União deixa de gastar, se o Congresso tivesse imposto goela abaixo do governo uma redução já da dívida. Ontem, em sua primeira reunião com líderes e presidentes de partidos aliados, o vice conseguiu arrancar um pacto em favor da aprovação do ajuste fiscal, sua principal empreitada, no momento.

Temer assume o comando político do governo num momento difícil. Se tiver sucesso, entrará na sucessão presidencial com um cacife bem maior que o tempo de televisão do PMDB, o que desde já deixa desconfiada uma parte do PT, que vê no sucesso do vice o fracasso da titular. Temer enfrentará resistências no PT, como demonstra a reação do ex-governador Tarso Genro (RS) à sua entronização, mas também no PMDB, sobretudo na área do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que namorou o PSDB na eleição e cresceu no conflito entre o Executivo e o Legislativo. Cunha não terá dificuldade para deixar Temer a pé, se Dilma não se recuperar. O Congresso, Cunha sobretudo, está no comando da agenda. Temer quer incluir o governo de volta ao jogo. Sem tirar o PMDB. Ou vice-versa.