Previsão de mais calotes e gastos

Correio braziliense, n. 18997, 31/05/2015. Economia, p. 13

Simone Kafruni

Com o tarifaço na conta de luz e o baixo crescimento econômico, o consumo de energia está em queda, representando maior risco às empresas do setor, que ainda sofrem com a inadimplência e com as perdas resultantes das ligações irregulares. O mercado projeta redução entre 3% e 5% no consumo total de eletricidade este ano. A queda na receita das companhias, que tende a ser agravada pela necessidade de investimentos para eliminar os “gatos”, pode pressionar os ativos em bolsa e afetar a qualidade de crédito para o setor, dizem especialistas.

“O consumo já está em queda por conta da recessão do país, mas isso deve se agravar porque os maiores aumentos das tarifas, sobretudo para clientes residenciais, estão ocorrendo em 2015. A partir de agora é que as empresas vão começar a sentir o aumento de inadimplência”, destaca o gerente de regulação da Safira Energia, Fábio Cuberos.

Para o especialista, à medida que efeitos dos altos reajustes forem sentidos pelos consumidores, a falta de pagamento começará a pressionar o caixa das companhias. “Só o reajuste das cotas da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) representou aumento médio de 30% a partir de março. Some-se as revisões tarifárias de cada distribuidora ao longo do ano e teremos elevações acima de 50%. Além disso, há a pressão das bandeiras tarifárias, que serão vermelhas o ano inteiro”, enumera. Com a sinalização vermelha, a tarifa é acrescida de R$ 5,50 a cada 100 quilowatts consumidos, o que já se configura num pré-racionamento, na opinião do advogado especialista em energia e sócio do escritório L.O. Baptista-SVMFA, Guilherme Schmidt.

Na avaliação dele, o governo se beneficiou do baixo crescimento porque o país estava sem água e sem energia. Para ele, a redução do consumo começou forçada pela crise. “Agora, o tarifaço passou a contribuir para inibir o consumo. As famílias se forçam a um ajuste. Não há mágica e, em alguns casos extremos, a alternativa é fazer ligações irregulares ou deixar de pagar a conta”, revela.

A empresária Gabriela Ferreira de Carvalho, de 26 anos, dona da sorveteria Leite e Mel, se assustou quando a fatura dobrou, passando de uma média de R$ 700 para R$ 1,5 mil. Com 12 freezers e duas máquinas de produção, que consomem ainda mais energia do que os refrigeradores, Gabriela diz que o reajuste a obrigou a reduzir despesas pessoais. “Não posso diminuir salários e já tenho menos funcionários do que precisaria, por causa dos encargos, então só restou cortar na margem de lucro e, consequentemente, nos gastos da família”, ressalta.

Na sorveteria, o movimento caiu 30% desde o fim de 2014. “A venda está baixa e eu não tenho como deixar de pagar a fatura. A energia é minha matéria-prima básica”, assinala. A empresária também reclama dos serviços. “Já perdi muito produto porque quando falta luz aqui, fica o dia inteiro sem energia. Eu sou obrigada a permanecer na loja até que o abastecimento seja restabelecido, porque se a eletricidade volta em uma fase só queima todos os meus equipamentos. Então tenho que tirar tudo da tomada e recolocar quando o fornecimento volta”, lamenta.

O proprietário da Panificadora Sabor Mix, Oliveira do Carmo Ribeiro, de 50 anos, há 11 com a padaria na Cidade Estrutural, ressalta que sua fatura de energia aumentou cerca de 40%. “Está, pelo menos, R$ 300 mais cara. Para não deixar de pagar, estou usando forno a lenha de novo para reduzir a pancada. Além disso, o movimento caiu 30% porque os clientes também estão sem dinheiro”, conta.

Gatos

Com a redução gradual das receitas, observa Schmidt, da L.O. Baptista-SVMFA, a rentabilidade do setor será afetada, implicando perda de valor das ações das empresas em Bolsa e aumento de risco, com crédito mais caro. “As companhias já foram colocadas em xeque com os empréstimos que foram necessários para socorrer os caixas”, explica, referindo-se aos financiamentos às concessionárias de energia, que somaram R$ 21,2 bilhões entre 2014 e 2015.

Os empréstimos foram apenas um dos motivos para os reajustes das tarifas terem sido tão elevados, provocando redução na demanda. Na Companhia Energética de Brasília (CEB), o consumo caiu 3,2% de janeiro a março na comparação com igual período do ano passado. A empresa, no entanto, afirma que o aumento da tarifa “ainda não se refletiu em maior inadimplência”. Porém, a CEB admite que as perdas técnicas, que incluem gambiarras e furtos de energia, chegam a 3,05% do faturamento. No Rio de Janeiro, esses gatos representam 41% das perdas.

“Chega uma hora em que não tem mais o que fazer. Ou fica devendo ou faz gato. Do jeito que está o preço da energia, é o que a gente mais vê acontecer por aqui”, diz a dona de casa Celina Brandão de Lima, de 34 anos, que mora na Cidade Estrutural. Depois de ficar inadimplente com cinco contas de luz, Celina, que tem quatro kitinetes para alugar, decidiu cortar as faturas excedentes e manteve apenas a da casa principal. “Ainda assim sempre atraso um pouco porque está demais. Não tem como pagar”, conta.