O globo, n. 29803, 13/03/2015. Economia, p. 26

Taxa de desemprego do país sobe a 6,8%. Renda continua em alta

Após ganho de 2,1% em janeiro, salários devem recuar, dizem  analistas

O desemprego subiu em janeiro no país pelos dados mais recentes e mais amplos divulgados pelo IBGE na Pnad Contínua Mensal. A desocupação passou para 6,8% no trimestre encerrado em janeiro — acima dos 6,4% apurados no mesmo período do ano passado. A alta do desemprego veio, porém, acompanhada de ganhos salariais. O rendimento médio do trabalhador em cerca de 70 mil domicílios espalhados pelo país continuou com ganho real e somava R$ 1.795,53 — abaixo do rendimento médio das metrópoles, que supera R$ 2 mil. Para economistas, o cenário econômico mais hostil irá pesar sobre o mercado de trabalho, elevando a taxa de desemprego, com provável queda na renda.

O IBGE fez a primeira divulgação mensal de um dado mais abrangente sobre o mercado de trabalho. O dado de janeiro leva em conta o trimestre móvel, ou seja, dados coletados nos três meses encerrados em janeiro (novembro, dezembro e janeiro).

PRESSÃO POR MAIS EMPREGOS

A Pesquisa Mensal de Emprego (PME) também havia apontado entre dezembro e janeiro uma alta expressiva do desemprego de 4,3% para 5,3%. A Pnad Contínua Mensal tem uma amostra de 70.464 domicílios nas 27 unidades da federação — bem mais ampla que a da PME, que analisa 44 mil domicílios em seis regiões metropolitanas.

Para o economista José Marcio Camargo, da Opus Gestão de Recursos, o desemprego cresceu de forma mais intensa que a habitual. Ele destacou a queda na ocupação (proporção de ocupados entre as pessoas que faziam parte da força de trabalho) entre o trimestre encerrado em janeiro do ano passado e igual trimestre deste ano 57,1% para 56,7%. A parcela de trabalhadores que buscavam emprego aumentou em ritmo mais intenso que a geração de vagas e foi insuficiente para absorver a população.

Para o economista Rafael Bacciotti, da Tendências Consultoria, embora a saída de pessoas da força de trabalho nessa pesquisa seja muito menos evidente que na PME, a tendência é que mais trabalhadores voltem a procuram emprego nos próximos trimestres, de modo a pressionar a taxa de desemprego:

O aumento da renda num cenário adverso para o emprego surpreendeu. Os rendimentos no trimestre encerrado em janeiro registraram alta de 2,1% frente ao mesmo período do ano passado. Em relação ao trimestre encerrado em outubro (comparação recomendada pelo IBGE, já que suaviza variações mais bruscas), houve avanço de 1%.

O economista João Saboia, da UFRJ, lembra que o efeito da inflação mais alta, que chegou a 1,24% em janeiro pelo IPCA, ainda não foi captado pela pesquisa e, portanto, não afetou a renda. Pela metodologia, a renda é deflacionada pela inflação do segundo mês do trimestre (dezembro), quando a inflação foi 0,78%: