O globo, n. 29827, 06/04/2015. Opinião, p. 13
Transtorno do espectro autista. Talvez você nunca tenha ouvido falar, mas certamente conhece alguém que se encaixa nesta condição, pois em nosso círculo de amizades e contatos sempre existe um autista. O problema é que, provavelmente, você nem a própria pessoa ou a família sabem que ela está dentro deste espectro. Mais de 80% dos autistas brasileiros não têm diagnóstico. A sociedade sequer imagina que o transtorno seja tão prevalente.
No ano passado, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos avaliou mais de 360 mil crianças de 8 anos de idade. De acordo com a pesquisa, um em cada 68 desses menores é autista. Significa que 1,5% das crianças americanas, nessa faixa etária, tem o transtorno. Já na Coreia do Sul, a prevalência é ainda maior, pois estudo de 2013 mostrou que 2,6% de todos menores entre 7 e 12 anos têm autismo. Multiplicam-se pelo mundo exemplos em que o Estado assumiu a responsabilidade pelo enfrentamento deste grande problema de saúde pública.
No Brasil, apesar de não existirem estudos epidemiológicos abrangentes, estima-se que 1% de toda a população esteja no espectro autista. Ou seja, temos aproximadamente dois milhões de autistas em nosso país. Para termos uma ideia do quão impactante é o número de crianças com autismo, basta juntarmos os casos de diabetes infantil, HIV na infância e todos os tipos de câncer que atingem a população pediátrica. Ainda assim, existem mais crianças dentro do espectro autista do que em todas essas condições em conjunto.
O autismo é um grave problema de saúde pública. Não existem programas de diagnóstico precoce — ou até mesmo tardio — do transtorno, faltam centros especializados, há carência de profissionais devidamente capacitados para o tratamento específico, bem como um sistema público de financiamento para fazer frente aos altíssimos custos relacionados ao tratamento e à educação de autistas.
Se formos mergulhar no dia a dia dessas famílias, independentemente de classe social, vamos nos deparar com uma realidade que leva pais e mães ao adoecimento, aos quadros de depressão que requerem tratamento medicamentoso e psicológico. O transtorno não acomete apenas os milhões de autistas, mas sim todos os seus núcleos familiares, afetando, diretamente, a vida de dez milhões de pessoas. Ainda assim, o SUS e os governos permanecem negligentes, condenando milhões de brasileiros a uma vida de grandes dificuldades.
O SUS mantém embaixo do tapete esses números alarmantes porque enfrentar o problema requer dinheiro, planejamento e vontade política. Também não podemos eximir de responsabilidade as universidades, que deveriam capitanear estudos populacionais multicêntricos e demonstrar, através de metodologia científica adequada, o real tamanho do problema, para tirar da negligência do SUS os milhões de autistas brasileiros que precisam de tratamento, de apoio, de inclusão escolar e de estratégias para inserção no mercado de trabalho.
José C. Pitangueira Filho é especialista em gestão de saúde e diretor executivo do Instituto Priorit