Valor econômico, v. 15, n. 3728, 02/04/2015. Internacional, p. A16

 

PIB cai e pobreza sobe na Rússia este ano, diz o Bird

 

Por Olga Tanas | Bloomberg

A Rússia corre o risco de vivenciar um "primeiro aumento significativo" de seu nível de pobreza desde a crise de 1998-1999, à medida que a primeira recessão em seis anos no país leva milhões à indigência, disse o Banco Mundial.

A taxa de pobreza, que contabiliza as pessoas que vivem com US$ 5 ou menos por dia, poderá subir para 14,2%, neste ano e no próximo, em comparação com 11,2% em 2014, disse o Banco Mundial (Bird) em relatório divulgado ontem, citando estimativas baseadas em seu cenário de referência para a Rússia. Neste ano, 20,3 milhões de pessoas, ou cerca de um sétimo da população, estarão vivendo abaixo do nível de subsistência, segundo o banco sediado em Washington.

 

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"As conquistas russas na década passada em matéria de redução da pobreza e ascensão social de uma grande parte da população podem estar em risco", disse o banco. "A Rússia dispõe de uma margem fiscal limitada para proteger os mais vulneráveis."

A recessão marca uma reversão para o presidente Vladimir Putin, que produziu uma elevação dos padrões de vida em seus 15 anos no poder. Agora, essa prosperidade está sob ameaça, pois a renda disponível e o consumo estão sofrendo o impacto da forte desvalorização de 46% do rublo no ano passado e do processo inflacionário mais rápido desde 2002.

O cenário de referência do Bird para a Rússia prevê contração de 3,8% do PIB neste ano e queda de 0,3% em 2016. O consumo, que responde por cerca de metade da economia, caminha para sua maior queda em mais de duas décadas.

Putin, que se tornou premê pela primeira vez em 1999 e foi eleito presidente no ano seguinte, abriu as portas para o início de uma era de riqueza, até a irrupção do conflito na vizinha Ucrânia em 2014. A taxa de pobreza caiu para cerca de 10%, de cerca de 30% entre 2000 e 2013, segundo o Bird. Nesse período, a classe média (definida como o conjunto de pessoas com consumo per capita igual ou acima de US$ 10 por dia) dobrou, para mais de 60% da população, diz o Bird.

"Na década passada, a Rússia viveu um crescimento sem precedentes do bem-estar das famílias, que levou muitas pessoas para acima da linha de pobreza e permitiu que muitos outros entrassem para as fileiras de uma classe média em crescimento", disse o banco.

O Banco Mundial estima que em 2010 a classe média controlava 74% da renda total do agregado familiar e 86% do consumo total das famílias.

Sanções americanas e europeias devido ao conflito ucraniano e a queda dos preços do petróleo no ano passado encolheram as receitas orçamentárias e sufocaram o acesso ao crédito. A retração nas vendas de commodities diminuiu a capacidade do governo de reagir e proteger os mais vulneráveis.

O desemprego crescerá a 6,5% neste ano, após atingir um recorde de baixa em 4,8% em agosto, segundo cálculos do Banco Mundial.

"Embora as pessoas na parte inferior da distribuição de renda sejam as mais vulneráveis, haverá menos oportunidades para um aumento da prosperidade compartilhada em 2015-2016", disse o banco. "Há uma preocupante possibilidade de que as recentes conquistas possam ser revertidas."