Título: Indianos nas ruas contra a corrupção
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Fonte: Correio Braziliense, 18/08/2011, Mundo, p. 35
Manifestantes apoiam ativista de 74 anos que iniciou uma greve de fome e foi preso
Dezenas de milhares de indianos se manifestaram ontem na capital, Nova Deélhi, em apoio à greve de fome de um ativista septuagenário que protesta contra a corrupção no país. Anna Hazare, 74 anos, há três décadas lidera iniciativas populares de desenvolvimento social e desde 1995 encabeça o Movimento Popular contra a Corrupção. O grupo denuncia abusos e irregularidades nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Há dois dias, Hazare foi detido por ter parado de comer, o que é considerado delito pela legislação do país. Contudo, poucas horas depois, recusou-se a aceitar a liberação concedida pelas mesmas autoridades que o detiveram ¿ sob a pressão de concentrações populares em várias cidades do país. Hazare avisou que só sairá da prisão e voltará a se alimentar quando os líderes políticos se comprometerem com uma lei efetiva contra a corrupção.
No começo da noite de ontem, homens e mulheres, jovens, idosos e crianças, trabalhadores e desempregados foram em massa para a frente do presídio de Tihar, onde o ativista decidiu permanecer. Outra multidão optou por concentrar-se diante da sede do Parlamento. Segundo porta-vozes do movimento liderado por Hazare, as manifestações reuniram entre 60 mil e 70 mil pessoas. A polícia se recusou a fornecer um número exato, mas admitiu que havia "dezenas de milhares" de participantes.
Pacifismo Apesar do clima tenso, na capital e em outras cidades, não foram registrados confrontos violentos. Isso pode ser consequência do pedido feito por Hazare a seus apoiadores, a quem ele pediu que mantivessem a calma e não reagissem a nenhum ataque. Essa orientação do ativista tem origem nos ensinamentos de Mahatma Gandhi (1869-1948), que pregava a não violência. O patriarca da independência indiana recorreu por 17 vezes a greves de fome e sempre rejeitou o uso da força, na campanha vitoriosa que levou à independência da Índia em relação ao império britânico, em 1947.
"Não existe outra forma de protestar contra a corrupção além do jejum", repetiu Hazare, diversas vezes, para justificar sua atitude. Ele explicou que o movimento anticorrupção "é uma segunda luta da Índia pela liberdade". Dessa maneira, espera colocar fim aos seguidos escândalos que têm surgido em diversas esferas do poder, nos últimos anos. "Não há nenhuma filosofia que permita questionar o poder do Parlamento para fazer as leis. Hazare questiona esses princípios e acredita ter direito a impor a sua lei ao Parlamento", contra-atacou o primeiro-ministro Manmohan Singh.
Em abril, Hazare, crítico contumaz da elite política, deixou de ingerir alimentos por cinco dias. Ele exigiu, na ocasião, que o governo nomeasse uma comissão, da qual ele participaria, para redigir um projeto de lei anticorrupção. As autoridades, que no começo se negavam a negociar, acabaram por atender ao pedido. Contudo, o ativista voltou a recorrer à greve de fome agora, alegando que a proposta apresentada ao Parlamento não contempla as necessidades do país. Em junho, ele também jejuou por um dia para obter a libertação do guru Baba Ramdev, que tinha sido preso depois de criticar os governantes.