O globo, n. 29872, 21/05/2015. País, p. 5
Presidente de CPI sugere que morto está vivo e cria confusão
Evandro Éboli, André de Souza e Silvia Amorim
Opresidente da CPI da Petrobras, deputado Hugo Motta ( PMDBPB), viu-se ontem no meio de uma confusão e, no final do dia, recuou de sua intenção de desenterrar o corpo do ex-deputado José Janene (PP-PR), morto em 2010. Na sessão de ontem da CPI, ele citou a ex-mulher de Janene, Stael Fernanda, que, segundo ele, teria dito não ter certeza da morte do ex-parlamentar — um dos pivôs do mensalão e dos escândalos investigados na Operação LavaJato —, uma vez que o caixão estava lacrado.
GIVALDO BARBOSA/14-9-2005 José Janene.Segundo ex-mulher, rito muçulmano não prevê nem caixão.
Motta propôs a exumação do corpo. Mais tarde, disse que, antes, pretendia ouvir Stael. A sugestão do presidente da CPI revoltou parentes de Janene, a começar por Stael, que disse ter ficado estarrecida com a história contada por Motta.
Daniele Janene, filha do exdeputado, disse ter conversado por telefone com Motta, e contou ter ouvido dele um pedido de desculpas, além da promessa de que se retrataria na reunião de hoje da CPI.
Mesmo após todas as críticas e desmentidos, Motta insistiu não haver provas cabais da morte do ex-parlamentar. No começo da sessão, informou até onde ele estaria vivendo.
— A CPI não perde nada com isso (em exumar o corpo). Se estivessem no meu lugar, vocês fariam o quê? Todo mundo que tem senso de responsabilidade acha essa a melhor saída. Se ele estiver vivo, será feito (sic) busca e apreensão. Tem gente que diz que ele vive na América Central — disse Motta.
Em texto publicado no Facebook, Stael contestou Motta. “Em momento algum procurei ou fui procurada por qualquer deputado dizendo o que colocaram em minha boca”, escreveu ela. Stael e Daniele destacaram que o velório, realizado na mesquita de Londrina, foi acompanhado por várias autoridades. O rito muçulmano, frisaram, não prevê caixão, “quanto mais lacrado”.
— Estão fazendo o povo brasileiro de palhaço — disse Daniele.
Em comunicado oficial divulgado no dia em que Janene morreu, o Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, onde ele estava internado havia 40 dias, informara que o óbito se deu em consequência de evolução de quadro de choque séptico. Janene tinha problemas cardíacos e estava na fila do transplante. Procurado, o Incor informou que não se manifestaria sobre a polêmica.
Ontem, a CPI ouviu o diretor- presidente da Camargo Corrêa, Dalton Avancini, afastado da empresa há seis meses. Ele disse que se arrepende pelo esquema de corrupção do qual participou na estatal. Disse que não teve força para romper com o esquema:
— Estou profundamente arrependido. Tive em minhas mãos possibilidade de romper com isso tudo. Por fraqueza não fiz.