Valor econômico, v. 15, n. 3741, 23/04/2015. Empresas, p. B1

Petrobras faz baixa contábil total de R$ 51 bi e de R$ 6,2 bi por corrupção

 

Por Camila Maia, Cláudia Schüffner, Rodrigo Polito e André Ramalho | De São Paulo e do Rio

Após oito horas de reunião, o conselho de administração da Petrobras aprovou os balanços referentes ao terceiro trimestre e o ano fechado de 2014. Os números divulgados no início da noite de ontem mostraram uma baixa contábil total de R$ 50,8 bilhões, sendo que a corrupção foi responsável por uma baixa de R$ 6,194 bilhões. Os números foram apresentados em entrevista no Rio pelo presidente da estatal, Aldemir Bendine.

A baixa refletiu os ajustes nos ativos que tiveram valor declarado inflado por práticas de corrupção, além do ajuste por "impairment" em ativos de refino, exploração e produção e petroquímica. A baixa de R$ 6,2 bilhões foi referente aos gastos adicionais capitalizados indevidamente no ativo imobilizado oriundos do esquema de pagamentos indevidos descobertos pelas investigações da Operação Lava-Jato.

A baixa por "impairment" de R$ 44,3 bilhões se referiu a desvalorização de ativos. O segmento de refino foi responsável por baixa de R$ 30,9 bilhões, devido à avaliação dos projetos do segundo trem da Refinaria Abreu e Lima (Rnest) e do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).

Essas perdas resultaram de "problemas no planejamento dos projetos, utilização de taxa de desconto com maior prêmio de risco, postergação da expectativa de entrada de caixa e menor crescimento econômico". Segundo a Petrobras, foi feita a avaliação dos projetos separadamente da unidade geradora de caixa do refino, tendo em vista a postergação dos projetos por extenso período, motivada por medidas de preservação de caixa e problemas na cadeia de fornecedores oriundos da Lava-Jato.

Além disso, a Petrobras seguiu suas concorrentes internacionais e realizou uma baixa por "impairment" de R$ 10 bilhões no segmento de exploração e produção de petróleo e gás natural, resultante da forte queda dos preços do petróleo no mercado internacional.

A área petroquímica foi responsável pela baixa contábil por "impairment" de R$ 2,9 bilhões, em decorrência do cenário de redução na demanda e nas margens.

Os ajustes relacionados à corrupção consideraram um percentual de 3% sobre contratos firmados entre 2004 e 2012, com 27 empresas. Foi nesse período que foram realizados os pagamentos indevidos descobertos pela Lava-Jato. As baixas referentes a esses pagamentos indevidos foram reconhecidas no terceiro trimestre.

A Petrobras reportou ainda o complemento de R$ 1,6 bilhão em provisão para perdas com recebíveis do setor elétrico.

Bendine afirmou que a partir de agora a companhia volta a garantir a credibilidade no relacionamento com acionistas e credores. "Dois princípios nortearam o trabalho de criação do modelo: transparência e credibilidade, que foram fundamentais para conseguirmos a chancela da PricewaterhouseCoopers [auditora externa]."

O executivo afirmou que a Petrobras pode recuperar parte dos valores resgatados da corrupção em maio. Segundo ele, todos os valores que serão resgatados com o processo de investigação e com os acordos de leniências serão repassados a petroleira, que, em sua opinião, foi vítima do esquema.

Com relação ao balanço, Bendine disse que o número apresentado ontem é "bastante conservador". "A companhia se debruçou fortemente na melhor metodologia que pudesse dar dimensão dos números naquele momento."

O executivo acrescentou que a companhia tem enorme desafio para conseguir melhores resultados. Com a divulgação do balanço, porém, ele disse que a petroleira "se coloca em outro patamar". Questionado sobre quanto do "impairment" realizado pode ser afetado pelo efeito da corrupção, ele disse que não é possível prever. Segundo ele, não há norma no mundo que permita prever o efeito da corrupção no "impairment".

Além de não pagar dividendos, no que o presidente da Petrobras foi categórico, o diretor financeiro, Ivan Simões, previu fechar 2015 com US$ 20 bilhões em caixa. Desse total, apenas US$ 3 bilhões devem vir da venda de ativos. A empresa prevê necessidade total de captações de US$ 13 bilhões, grande parte já obtida em operações fechadas nas últimas semanas. Entre as alternativas de financiamento, Simões citou os mercados não visitados pela Petrobras nos últimos 15 anos, o brasileiro de renda fixa.

Estatal vai desacelerar investimentos e projetos no plano de negócios até 2018

 

Por Cláudia Schüffner, Rodrigo Polito e André Ramalho | Do Rio e de São Paulo

O declínio dos preços do petróleo no mercado internacional, a apreciação do dólar e a necessidade de reduzir seu endividamento fizeram com que a Petrobras precisasse rever suas perspectivas futuras, tendo que reduzir o ritmo de investimentos, afirmou Aldemir Bendine, presidente da estatal. Ele fez a declaração em carta aos acionistas e investidores publicada com o relatório de desempenho de 2014.

"Como resultado, a companhia decidiu postergar a conclusão de alguns ativos e projetos inclusos em seu plano de negócios 2014-2018", afirmou o executivo, que assumiu o comando da petroleira no início de fevereiro.

Esses atrasos tiveram efeitos nos testes de "impairment", que resultaram em perdas de mais de R$ 40 bilhões nas demonstrações do quarto trimestre do ano passado.

Segundo Bendine, passado o momento da divulgação dos resultados, o foco é nos desafios de médio e longo prazo. "Estamos desenvolvendo um novo plano de negócios, no qual incorporaremos premissas econômicas que refletem o cenário atualmente vivenciado pela indústria de petróleo", afirmou.

O presidente da companhia reiterou que os investimentos vão se concentrar na área de exploração e produção de petróleo e gás, segmento mais rentável da estatal.

A publicação dos resultados de 2014 auditados "transpôs uma importante barreira, após um esforço coletivo, que evidencia a capacidade da companhia de superar desafios em um contexto adverso", afirmou. "Este exercício me trouxe ainda mais confiança de que iremos responder às questões estratégicas que nos defrontam, relativas ao plano de negócios da companhia, de maneira eficiente e criando valor para a companhia".

Na carta, Bendini afirmou ainda que a Petrobras desenvolveu uma metodologia nova para estimar os gastos adicionais frutos dos esquemas de propina revelados pela operação Lava-Jato.

Já para este ano, a petroleira nacional pretende investir US$ 29 bilhões neste ano, contra os aportes previstos no início de janeiro, de US$ 31 bilhões a US$ 33 bilhões. Para o ano que vem, a companhia projeta investimentos ainda menores, de US$ 25 bilhões.

A expectativa da empresa é encerrar o ano com caixa de US$ 20 bilhões, contra saldo inicial de US$ 26 bilhões. A geração operacional da empresa deve totalizar US$ 23 bilhões em 2015.

Informou ainda, que o plano de desinvestimentos da empresa deve se intensificar em 2016. A previsão para este ano é arrecadar US$ 3 bilhões com venda de ativos, contra os US$ 10 bilhões projetados para o ano que vem.

A petroleira divulgou ainda a meta de produção para 2015, que está mantida de 2,796 milhões de barris de óleo equivalente ao dia. E do próximo ano, em 2,886 milhões de barris, aumento de apenas 2%. No próximo ano são esperadas quatro novas plataformas: Cidade de Maricá, Cidade de Saquarema, Cidade de Caraguatatuba e o teste de longa duração de Libra.

A estatal considera um preço do barril em US$ 60 neste ano e US$ 70 em 2016. E estima que o dólar será de R$ 3,1 neste ano e R$ 3,3 no próximo.