Valor econômico, v. 15, n. 3740, 22/04/2015. Brasil, p. A3

 

Indústria perde fatia na exportação

 

Por Marta Watanabe | De São Paulo

A desvalorização do real frente ao dólar faz a exportação voltar aos planos centrais das indústrias, mas a recuperação dos embarques tem um longo caminho a percorrer. Em sete dos dez destinos mais importantes de produtos industrializados - Estados Unidos, Argentina, Holanda, México, Paraguai, Cingapura, Chile, Venezuela, Colômbia e Alemanha -, a fatia de exportação de manufaturados dentre os embarques brasileiros totais de 2014 foi menor que a de 2008, ano anterior à crise financeira, que derrubou a demanda internacional.

Também em sete entre os dez países a fatia foi menor que a de 2003, quando iniciou-se a chamada época de ouro, com expansão das commodities e os básicos representavam apenas 28,9% dos embarques totais, bem menos que os 48,7% de 2014. O estudo, da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), mostra que houve um domínio maior dos produtos básicos na pauta de exportação brasileira. E isso não aconteceu apenas por conta de destinos como China, grande consumidor do minério de ferro e da soja brasileiros. O avanço dos produtos básicos aconteceu também em destinos mais tradicionais para o Brasil no embarque de produtos industrializados. O estudo avaliou 40 países de destinos das exportações brasileiras, entre os 50 maiores.

 

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Um bom exemplo do avanço dos básicos e recuo dos manufaturados, diz José Augusto de Castro, presidente da AEB, são os Estados Unidos. Em 2014, aponta o levantamento, os EUA retomaram a posição perdida para os argentinos em 2008, de maior destino de manufaturados brasileiros. A participação dos industrializados nos embarques do Brasil, porém, caiu significativamente.

Em 2003, os manufaturados representavam 77,2% do que o Brasil exportava para os americanos. Em 2008, um pouco antes dos efeitos da crise na economia real, a fatia já havia caído para 58,7%. No ano passado, houve novo recuo, para 50,6%. Ao mesmo tempo, a venda de produtos básicos aos americanos subiu de 8,6% dos embarques em 2003 para 23,6% no ano passado.

O embarque para os EUA é considerado emblemático principalmente neste momento, diz Castro, quando a desvalorização do real frente ao dólar e a expectativa de uma demanda doméstica fraca fazem as empresas se voltarem para a exportação.

"O mercado para o qual os brasileiros estão olhando são os EUA. Lá estão as grandes expectativas. O problema é que o mundo inteiro está olhando agora para lá", diz o executivo da AEB. O avanço dos básicos em detrimento dos manufaturados na exportação aos americanos, diz Castro, não aconteceu somente em função de preços das commodities, que tiveram o auge em 2011. "Houve perda de mercado do industrializado brasileiro em relação a outros fornecedores internacionais."

Castro calcula o esforço para voltar aos índices de 2000, quando os EUA representavam 24% das exportações totais brasileiras e os manufaturados alcançavam 72% do que o Brasil exportava aos americanos. Retornar a essas proporções, contabiliza Castro, equivaleria a elevar as exportações totais aos americanos em US$ 25 bilhões e as de bens manufaturados em US$ 23 bilhões. Com taxas de crescimento sustentadas, embora ainda relativamente baixas, diz Castro, os EUA constituem mercado com elevado potencial para expansão de industrializados.

"Mas é preciso que tenhamos condições de competitividade, não só de preço, como também de financiamentos", diz Castro. Um mercado americano em potencial, destaca, é o de máquinas e equipamentos. "Para esse tipo de bem, o financiamento é essencial."

O desempenho das trocas de manufaturados com os parceiros comerciais da América Latina também mostra que o industrializado brasileiro perdeu fôlego nos embarques. Na venda aos chilenos, a parcela de manufaturados caiu de 76,4% em 2003 pra 65,1% em 2008 e para 46,7% em 2014. Na Venezuela a queda também foi acentuada. A fatia de manufaturados na exportação total brasileira recuou de 92,3% em 2003 para 69,3% em 2008 e para 47,3% no ano passado.

Para Argentina e México, a parcela de industrializados oscilou, mas manteve-se alta. Em 2003, 88,9% do que o Brasil vendia aos argentinos era de manufaturados, parcela que subiu para 91,8% em 2008 e caiu para 89,3% no ano passado. Para o México, os manufaturados representaram, nos mesmos períodos, respectivamente, 91%, 84% e 85,9%. Um dos aspectos preocupantes nos embarques para os dois países é que o valor exportado diminuiu no período pós-crise. O valor de manufaturados brasileiros embarcados para a Argentina em 2008 foi de US$ 16,16 bilhões. Em 2014, encolheu para US$ 12,75 bilhões. Para os mexicanos, na mesma comparação, o valor de manufaturados recuou de US$ 3,59 bilhões para US$ 3,15 bilhões.

Esse desempenho no comércio regional, diz Castro, acende uma luz amarela. Os países mais próximos do Brasil, destaca, são tradicionais compradores de manufaturados brasileiros. Os países da América do Sul, aponta o estudo, ocupam cinco das dez posições na classificação dos destinos mais importantes em valor nominal exportado de manufaturados.

Os sul-americanos também ocupam as seis primeiras posições quando a classificação é por fatia de manufaturados na exportação brasileira. Nesse critério, os seis primeiros destinos são Bolívia, com 95,4%, Paraguai, com 93,2%, Colômbia, com 92,6%, Equador, com 92,2%, Peru, com 92% e Argentina, com 89,3%. O ranking leva em conta a exportação de 2014.

Esses dados, diz Castro, sinalizam que a maior competitividade dos manufaturados exportados pelo Brasil está concentrada e restrita aos mercados da América do Sul, ainda que seus países estejam longe de ser os maiores mercados mundiais de importação de industrializados. Mas seu potencial, diz o executivo da AEB, não pode ser menosprezado. A dificuldade de exportar manufaturados para esses países, seja revelada pela redução de fatia de exportação de industrializados ou pelo recuo no valor exportado, deve ser analisada. Uma estratégia deve ser traçada, afirma Castro, para que não se perca o potencial de crescimento do comércio para a região.

Para Castro, uma das prioridades é o estabelecimento de acordos comerciais mais amplos. Em relação a destinos como Chile, Colômbia e Venezuela, diz, a perda de mercado do Brasil acontece porque esses países estão ampliando relações com outras regiões, seja por meio de acordos comerciais, ou por questão de financiamentos. O Chile e a Colômbia, destaca Castro, fizeram acordos de livre comércio com outros países e tendem a reduzir ainda mais as importações de manufaturados "made in" Brasil por conta da criação do bloco da Aliança do Pacífico.

 

Cresce uso do real no comércio exterior, revela estudo

 

Por Eduardo Campos | De Brasília

Estudo realizado por técnico do Banco Central afasta a ideia de que o real não é usado em operações de comércio exterior. Revisando as séries de dados no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio entre 2007 e 2011, foi constatado aumento de nove vezes na escolha do real como moeda de troca.

"O real é, de fato, usado de forma voluntária em operações de comércio e estabelecemos que ele tem algum papel internacional, ao menos como meio de troca para um grupo de agentes", diz Daniel Gersten Reiss, da Universidade de Brasília e do BC na conclusão do estudo "Invoice Currency: puzzling evidence and new questions from Brasil" ("Moeda de fatura: evidências intrigantes e novas questões do Brasil", em tradução livre), que faz parte de um conjunto mais amplo de estudos que buscam avaliar o papel da moeda brasileira no comércio global. O estudo não necessariamente reflete a avaliação do BC sobre o tema.

Embora limitado em volume, saindo de 0,13% da corrente de comércio em 2009 para 1,25% em 2011, o crescimento não deixa de ser significativo. Os pesquisadores identificaram que, no Brasil, não há coincidência entre a moeda usada para faturar e para efetuar pagamentos. Ou seja, embora faturado em reais, o pagamento não é liquidado na moeda brasileira. Eles observaram que as principais exportações faturadas em reais são de produtos homogêneos (açúcar e tabaco), sugerindo que resta algum poder de barganha ainda que os produtos sejam comercializados em mercados internacionais.

O resultado contradiz a expectativa de que, por serem commodities, esses bens seriam negociados em moeda internacional. Esse poder de barganha decorre da posição do país nesses mercados, onde representa 40% da exportação global de açúcar e 12% de tabaco.

"A partir da perspectiva do real, definitivamente nos afastamos da ideia de que o real não é utilizado no comércio exterior brasileiro. Ainda que seu uso seja limitado em valores absolutos, um crescimento de nove vezes é observado entre 2007 e 2011. A partir de agora, novas intrigantes questões sobre o uso da moeda brasileira podem ser formuladas", diz o estudo.

Em outubro de 2008, Brasil e Argentina lançaram o Sistema de Pagamento em Moeda Local (SML), que permite às partes envolvidas em operações de comércio exterior fechar contratos em suas respectivas moedas. Segundo o estudo, a adoção do sistema contribuiu, em parte, para um maior uso do real, não só no comércio com a Argentina, mas também com outros países. O fato é que a existência de um instrumento financeiro acaba influenciando a escolha. Em dezembro de 2014, um SML começou a funcionar com o Uruguai.

Ente os países que escolheram o real como moeda de comércio, os parceiros do Mercosul (Argentina, Paraguai e Uruguai) responderam por 85% das operações de exportação entre 2007 e 2010 e 53% em 2011. Mas há aumento na difusão entre os países que usaram a moeda brasileira em operações de exportação, de 24 em 2007 para 96 em 2011. Na exportação, os produtos mais negociados em reais foram energia, tabaco e açúcar. Na importação, os bens farmacêuticos foram os mais importados usando o real, com destaque para operações com Alemanha, Estados Unidos e Suíça. Segundo o estudo, uma das explicações para esse tipo de empresa optar pelo real é tentar mitigar variações cambiais entre matrizes e subsidiárias. Depois aparecem equipamentos elétricos e de construção de ferrovias.

Exportações pagas em reais não eram permitidas até abril de 2007. Isso refletia a falta de moeda estrangeira e a obrigação de receber receitas de comércio em dólares era uma forma de lidar com o problema. As mudanças de ambiente macroeconômico acabaram com essas dificuldades.

O dólar representa 95% das transações de exportação, seguido pelo euro e por outras moedas com participação residual, como libra, iene, coroa sueca, dólar canadense, dólar australiano, franco suíço, coroa norueguesa e coroa dinamarquesa. Na importação, a fatia do dólar cai, mas ainda representa 85%, seguido pelo euro e pelo real.

Segundo o estudo, um ponto que desafia o crescimento do real nas operações comerciais é a volatilidade da moeda. Como os dados de comércio exterior são reportados em dólares, o impacto da variação do real e de outras moedas ante o dólar tem de ser considerado. Mesmo colocando na conta esse efeito, o uso do real aumentou.

A internacionalização de uma moeda passa por seu reconhecimento como meio de troca e unidade de conta para além das fronteiras do país emissor. Toda vez que importador e exportador escolhem determinada moeda para fechar negócio, estão reconhecendo essas qualidades da moeda.

A escolha da moeda leva em conta os custos financeiros, qual produto está sendo negociado - se é uma commodity globalmente negociada em dólares, é mais barato trabalhar com essa moeda- e a previsibilidade macroeconômica do país emissor, o que ajuda a reduzir a volatilidade sobre a receita esperada.