O globo, n. 29854, 03/05/2015. País, p. 7
“Nunca fui militante orgânico do partido. Eu não me empolgo com a vida interna do partido, não é a minha praia”
O senhor acha que a rejeição do eleitor conservador a parte das bandeiras de sua administração explica a sua baixa popularidade?
Não fui eleito com as bandeiras conser vadoras. Fui eleito com bandeiras progressistas: transporte público, transporte individual não motorizado, coleta seletiva, lâmpada LED, praça com wi- fi e política de redução de danos dos usuários de drogas. Eu nunca me preocupei com isso ( índice de popularidade).
Nem com vista à reeleição?
Você tem que se reeleger em nome daquilo em você acredita. Não vou abdicar das ideias nas quais acredito por conveniência eleitoral. A pessoa que se move por pesquisa de opinião não deve governar. Não está preparada para a política.
O senhor, que se apresenta como portador de bandeiras progressistas, vai buscar no ano que vem de novo o apoio do Paulo Maluf (PP), como em 2012, com direito a fotos no jardim da casa dele?
O meu principal concorrente também foi (procurar Maluf ), mas foi à noite. Eu preferi fazer as coisas às claras. Eu não fulanizo na política. O apoio do PP (partido de Maluf ) foi institucional.
Nunca fui um militante orgânico do partido. Eu não me empolgo com a vida interna do partido, não é a minha praia. Acho que o PT, até pelo sucesso eleitoral que teve, acabou diminuindo a importância da vida interna do partido.
O senhor se decepcionou com o PT diante dos escândalos?
Para mim, ética é um atributo individual, não coletivo. Você tem comportamento antiético em qualquer organização humana, igrejas, times de futebol, partidos. O que precisamos é da capacidade de depurar, e penso que o governo federal tem agido nesse sentido.
Mas as denúncias contra figuras do partido não o constrangem?
Toda conduta suspeita ou ilícita causa constrangimento. Quanto maior a proximidade, maior o constrangimento. Quando uma pessoa do seu partido comete um erro causa constrangimento porque carrega a mesma legenda que você.
Uma das correntes do PT defende que todos os citados em casos de corrupção devem se afastar de cargo na direção partidária. O senhor concorda com isso?
Eu faria isso. Acho uma dinâmica correta se afastar para responder a uma acusação e, depois, se for o caso, voltar.
Mas no caso do tesoureiro João Vaccari Neto, não houve afastamento. e ele foi preso quando estava no cargo. O PT errou?
Talvez ele ( Vaccari) tenha errado por não ter percebido que a melhor coisa a fazer era se afastar.
Ao deixar o PT nesta semana, a senadora Marta Suplicy disse que quem continua no partido é conivente com a corrupção.
O PT tem 1,5 milhão de filiados. Não quero crer que ela tenha ofendido 1,5 milhão de pessoas.
O senhor está preparado para enfrentá-la no ano que vem?
Me fizeram a mesma pergunta sobre o ( José) Serra (PSDB) em 2012.
Mas a Marta e o Serra têm perfis diferentes. A Marta disputa eleitores no seu campo político, de esquerda.
Ela esteve à esquerda.
A Marta diz que, quando prefeita, tinha um orçamento muito menor que o atual e fez mais obras do que o senhor.
Ela fez muita coisa porque eu era secretário de Finanças (Haddad era chefe de gabinete da Secretaria de Finanças). Eu e o ( João) Sayad (secretário de Finanças) arrumamos a casa. Fizemos um grande planejamento de obras. Eu sei o trabalho que fizemos para sanear as finanças da cidade.
Em resposta a Marta, o PT disse em uma nota que ela saiu do partido por ambição eleitoral.
Uma pessoa que concorreu cinco vezes a cargos majoritários ( uma vez a governadora, três a prefeita e uma a senadora), foi duas vezes ministra, não pode reclamar de falta de espaço. Não foi por isso que ela saiu.
A nota do PT fala em personalismo desmedido por parte dela.
Meu comentário é esse. É natural que um partido queira lançar novos nomes. É da tradição do PT. Qual crítica, o senhor faz a Marta? Isso tem momento.