Título: Transformando o crescimento em redução da pobreza
Autor:
Fonte: Correio Braziliense, 13/08/2011, Opinião, p. 19
Diretor-geral de Avaliação do Grupo Banco Mundial
Diretor da Avaliação do Setor Privado do Grupo de Avaliação Independente (IEG)
Nas últimas décadas, muitos países têm experimentado crescimento econômico sem precedentes e redução significativa da pobreza. Com taxa média de crescimento de 10%, a China conseguiu reduzir a pobreza em quase 75% desde 1990. Na América Latina e no Caribe, a pobreza caiu 25% de 1995 a 2005. Em termos globais, o aumento de um ponto percentual na renda está vinculado a um declínio na pobreza de cerca de 2,5 pontos percentuais.
Porém, mesmo com um crescimento econômico relativamente alto, a redução da pobreza tem sido muito variável entre os países, e os benefícios de crescimento nem sempre atingem as pessoas pobres e vulneráveis. Os números elevados são também impressionantes: em meados da última década, cerca de 1,4 bilhão de pessoas no mundo inteiro ainda vive em extrema pobreza. Portanto, permanece sumamente importante a agenda para manter o crescimento e assegurar que a sua natureza seja favorável à redução de pobreza.
Nesse contexto, o setor privado se reveste de importância especial pelo fato de apoiar crescimento capaz de reduzir acentuadamente a pobreza. As taxas de pobreza mundiais não teriam diminuído drasticamente sem um setor privado dinâmico. No entanto, o impacto do investimento privado sobre o crescimento e o impacto do crescimento sobre a pobreza não são automáticos. Alavancar o setor privado traz consigo o potencial de altas recompensas, mas os riscos importantes também precisam ser gerenciados.
Primeiro, a distribuição da renda é muito importante quanto ao grau em que a redução da pobreza reage ao crescimento econômico. A participação do setor privado deve ser favorável para possibilitar uma melhor distribuição da renda, especialmente quando a situação inicial é altamente distorcida.
Segundo, o padrão de crescimento promovido pelo setor privado é crucial. O impacto da pobreza é ainda maior quando o crescimento enfoca áreas em que a pessoas pobres estão mais concentradas e se concentram mais nos setores em que ganham a sua subsistência. Os novos caminhos das atividades empresariais precisam envolver diretamente os pobres, como trabalhadores, fornecedores, distribuidores e consumidores de formas financeiramente sustentáveis.
Terceiro, quando os mercados fracassam ou são ineficientes, as respostas do setor privado aos sinais do mercado podem exacerbar as desigualdades, deixando os pobres em situação ainda pior. Por exemplo, distorções no acesso a ativos e finanças podem aprofundar ainda mais as diferenças na distribuição. Nessas situações, a Corporação Financeira Internacional (IFC), ramo do setor privado do Grupo Banco Mundial, pode ajudar a abortar os fracassos do mercado.
A IFC vem envidando esforços no sentido de combater a pobreza por meio de ênfase em atividades empresariais inclusivas e contribuições significativas para a Associação Internacional de Desenvolvimento (AID) ¿ o fundo do Banco Mundial para apoiar os países mais pobres. A grande maioria dos projetos de investimentos da IFC contribuiu positivamente para o crescimento econômico e, na maior parte, ajudou a pobreza indiretamente. Mas incorporar questões relacionadas com a distribuição na formulação dos projetos tem sido um desafio. A evidência proporcionada pelas avaliações indica que o enfoque na pobreza não precisa ser à custa do sucesso financeiro e que uma ampla série de intervenções da IFC pode melhorar tanto o ritmo do crescimento como os benefícios para os pobres.
Várias ações da IFC podem aumentar o impacto dessa entidade sobre a pobreza e servir de exemplo para a redução da pobreza liderado pelo setor privado. Uma prioridade seria promover entendimento compartilhado para contar com um enfoque claro nas estratégias corporativas. A IFC pode também utilizar os vastos conhecimentos e recursos do Grupo Banco Mundial no sentido das melhores formas de atingir os pobres e implementar abordagens inovadoras em favor da redução da pobreza. Os vínculos entre crescimento, distribuição e benefícios para os pobres podem ser mais explícitos na formulação dos projetos. Valeria a pena também melhorar os indicadores de acompanhamento desses resultados.
Um enfoque no crescimento e uma melhor distribuição dos seus benefícios serão necessários para assegurar que o crescimento possa de fato ser sustentado e que represente diferença significativa para a redução de pobreza. O setor privado pode ser ator-chave para garantir que o crescimento seja sustentável e que os seus benefícios atinjam os pobres.