Valor econômico, v. 15, n. 3755, 14/05/2015. Finanças, p. C2
Mercado respeita piso de R$ 3 e dólar sobe
Por Silvia Rosa e Lucinda Pinto | De São Paulo
O mercado mostrou ontem que o patamar de R$ 3 consolidou-se como um piso informal para o dólar e voltou a comprar moeda americana quando a cotação escorregou abaixo desse nível. Na mínima do dia, o dólar atingiu R$ 2,9824, mas fechou valendo R$ 3,0378, alta de 0,58%.
Dois fatores levaram o mercado a considerar que R$ 3,00 é o ponto de compra. Um deles é a mensagem do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, de que o governo tem interesse em ver uma correção do câmbio que contribua para o ajuste das contas externas. Na terça-feira, Levy reiterou essa mensagem em Londres, ao dizer que o realinhamento de preços, como energia, combustíveis e também o câmbio, é um dos três pilares dos ajustes que estão em curso.
O outro argumento vem da decisão do Banco Central de diminuir o ritmo das rolagens do swap cambial, quando a cotação desafiava a linha dos R$ 3.
"O mercado ainda está comprado em dólar e toda vez que a moeda americana se aproxima desse piso acaba chamando os compradores", afirma um analista de uma corretora local.
Também contribuiu para a alta do dólar o resultado do fluxo cambial na primeira semana de maio, que ficou negativo em US$ 2,558 bilhões. O número é resultado de uma entrada líquida de US$ 634 milhões pela conta comercial e saída líquida de US$ 3,192 bilhões na financeira.
Por causa dessa percepção, de que há pouco espaço neste momento para uma valorização adicional do real, a moeda brasileira operou na contramão do mercado internacional, onde o dólar perdeu terreno em relação às divisas emergentes: -1,46% ante o rand sul-africano; -1,20% na comparação com a lira turca; -0,38% ante o peso mexicano; e -0,50% em relação à rupia indiana.
O Dollar Index, que mede o desempenho do dólar ante uma cesta de divisas, também mostrou queda expressiva: perto das 17h18, o indicador recuava 1,02%. O euro tinha importante peso nesse movimento, ao ganhar 1,2% em relação ao dólar, para US$ 1,1344.
A queda do dólar no mundo foi sustentada por dados fracos divulgados nos Estados Unidos (as vendas no varejo ficaram estáveis em abril, enquanto a expectativa era de crescimento de 0,2%), o que esfria ainda mais a perspectiva de alta de juros no curto prazo por lá.
Os juros futuros fecharam a sessão em queda, em um movimento de ajuste, após as altas recentes. O recuo, entretanto, foi mais acentuado entre os vencimentos mais longos, em um movimento coerente com a aposta de que o Banco Central será mais firme na condução da política monetária.
Assim, a diferença entre o DI com prazo em janeiro de 2017 e o DI de janeiro de 2021 ficou em -0,79 ponto, ante -0,77 ponto na véspera. Há uma semana, esse degrau estava em -0,67 ponto.
"Há uma recuperação da credibilidade do BC", afirma o economista-chefe da Garde Asset Management, Daniel Weeks. O mercado já coloca no preço a ideia de alta da Selic para 14% e um recuo mais gradual ao longo de 2016. À medida que o BC confirme esse cenário, dizem analistas, a curva pode aprofundar esse diferencial negativo. O DI para janeiro de 2016 fechou estável, com taxa de 13,80%. O DI de janeiro de 2017 caiu de 13,56% para 13,52%.