Itamaraty cobra diplomacia venezuelana

Daiene Cardoso

Ricardo Brito

 

Diante da pressão da oposição, o Ministério das Relações Exteriores decidiu cobrar explicações da embaixadora da Venezuela no Brasil, Maria Lourdes Urbaneja Durant, e da chanceler venezuelana, Delcy Rodriguez, sobre o episódio envolvendo a missão de senadores brasileiros em Caracas. A atitude é vista na diplomacia como um gesto de insatisfação do governo brasileiro e, dependendo da resposta do governo de Nicolás Maduro, o Itamaraty pode avaliar se chamará de volta ou não o embaixador brasileiro.O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, telefonou ontem (19) pela manhã para sua colega para pedir informações sobre o episódio. A chancelaria brasileira ainda avaliará os esclarecimentos que serão prestados pela Venezuela para depois se posicionar.Na quinta-feira, uma comitiva de oito senadores liderados pelo tucano Aécio Neves (MG) foi encurralada na chegada ao país vizinho por militantes pró-Maduro. O objetivo era visitar políticos de oposição presos. Sem conseguirem se movimentar, os senadores decidiram voltar ao Brasil depois de cinco horas e de duas tentativas frustradas de sair do aeroporto em direção ao centro de Caracas.Aécio acusou o governo venezuelano de agir deliberadamente contra a comitiva e reclamou da falta de respaldo da chancelaria brasileira na viagem.Segundo o Itamaraty, os diplomatas brasileiros prestaram apoio logístico à comissão externa de senadores em Caracas, como oferta de avião da Força Aérea Brasileira (FAB), além de pedir autorização do governo venezuelano para a missão parlamentar e acesso à penitenciária de Ramo Verde, onde estão os líderes oposicionistas do país vizinho. A agenda, destacou o Itamaraty, foi estabelecida pela comissão de senadores, e não pela embaixada brasileira.“Houve uma ação deliberada do governo venezuelano, como lá percebíamos, mas agora também do governo brasileiro para expor uma delegação oficial de senadores, que nada mais fazia que prestar solidariedade aos presos políticos e defender a democracia na Venezuela”, acusou Aécio. O presidente do PSDB disse que os diplomatas brasileiros abandonaram os senadores da comitiva à própria sorte, embora, segundo ele, tivesse havido uma promessa do embaixador do Brasil na Venezuela, Ruy Pereira, de colocar à disposição integrantes da chancelaria para acompanhar a delegação durante a viagem.O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), insinuou que foi a presidente Dilma Rousseff quem deu a ordem para que a delegação do Senado não fosse acompanhada. “É evidente que foi decidido pela própria presidente Dilma, que tem simpatia pelo governo da Venezuela”, criticou.O Itamaraty rebateu a acusação e alegou que o embaixador recebeu a comitiva no aeroporto, mas seguiu o trajeto em carro separado porque não estava prevista sua participação na visita ao presídio. Assim como os parlamentares, o embaixador ficou preso no congestionamento e voltou com o grupo para o aeroporto quando foi decidido o retorno dos senadores ao Brasil.MercosulA oposição voltou ao Brasil pedindo a exclusão da Venezuela do Mercosul por desrespeito a cláusulas democráticas. Eles anunciaram que vão apresentar uma proposta de emenda à Constituição (PEC) para trazer para o Congresso a prerrogativa de suspender acordos do Mercosul em caso de descumprimento das cláusulas. Vão também apresentar pedidos de convocação de Mauro Vieira e do embaixador brasileiro no país vizinho, além de ação no Supremo Tribunal Federal por suposta omissão de Dilma à cláusula democrática.