Morte de ciclista abrem crise
Correio braziliense, n. 18987, 21/05/2015. Brasil, p. 8
Marcella Fernades
A morte do ciclista Jaime Gold, um médico de 56 anos, na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, somada a uma sequência de crimes, levou o secretário de Segurança do estado, José Mariano Beltrame, a trocar o comando do 23º Batalhão da Polícia Militar, responsável pelo policiamento da área. Os atos violentos em uma das regiões nobres da cidade a pouco mais de ano das Olimpíadas têm provocado insegurança e revolta nos moradores. Jaime foi atacado com facadas no início da noite de terça-feira enquanto andava de bicicleta e faleceu na manhã de ontem. De acordo com a Delegacia de Homicídios (DH), foi feita uma perícia complementar no local da morte, “testemunhas estão sendo ouvidas e imagens de câmeras de segurança, analisadas”.
Outro caso recente de violência na região foi o assalto a Victor Didier, 19 anos, que também estava em uma bicicleta. Ele ficou duas semanas internado em uma unidade de tratamento intensivo após ter sido roubado no início da noite de 19 de abril. “Foram quatro facadas. Ele quase morreu, porque atingiram os pulmões e por pouco não atingiram as veias principais”, conta o pai da vítima, o executivo Christophe Didier, 51. Segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio, foram registradas 1.049 ocorrências em abril na região da Lagoa, que abrange sete bairros da Zona Sul. Dessas, 83 foram casos de lesão corporal dolosa (com intenção de ferir) e 118 roubos, sendo 62 assaltos a transeuntes, nos quais se enquadram os crimes envolvendo ciclistas. As delegacias não discriminam nos registros roubos de bicicletas.
“Mais do que lamentável, é inadmissível o que aconteceu”, afirmou Beltrame. Ele admitiu que há dificuldades na atuação policial e que a PM discute ações conjuntas com a guarda municipal. O secretário enfatizou a importância turística ao se referir ao local como “um cartão-postal”. De acordo com o novo comandante da PM no Leblon, policiais farão abordagens nos ônibus e haverá apoio de agentes do serviço reservado da própria unidade e do Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas. O patrulhamento na região tem duas cabines de polícia e rondas diárias de viaturas, policiamento a pé, em carrinhos elétricos, em motos e em bicicletas. De acordo com a assessoria da PM, 48 homens reforçaram as ações ostensivas ontem.
O sociólogo Glaucio Ary Dillon Soares, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), lembra que as cenas de violência ganharam destaque pelas circunstâncias. “Você tem uma lente que diminui a atenção em algumas áreas e aumenta em outras. Se acontece na Lagoa ou no Leblon, recebe muita atenção”, afirma. De acordo com ele, os índices de violência, de modo geral, reduziram no Rio, e os assaltos costumam ser cometidos pelas mesmas pessoas. “É preciso muita preocupação com os reincidentes. A probabilidade de continuar assaltando é muito maior do que de assaltar pela primeira vez”, completa.
“Tragédia anunciada”
A Comissão de Segurança no Ciclismo da Cidade do Rio de Janeiro (CSCRJ) classificou a morte de Jaime com uma “tragédia anunciada”. O grupo tem buscado ajuda do poder público no combate à violência contra ciclistas. No início do mês, foi feita uma corrida e, no sábado, será realizada uma missa campal na Lagoa. Em seguida, os ciclistas vão pedalar até o Palácio Guanabara, sede do governo local. Para o presidente da CSCRJ, Raphael Pazos, é preciso reforçar o ciclopatrulhamento e aprovar o projeto de lei estadual que inclui nos registro policiais informações das bicicletas roubadas, como o número de série, o que facilitará o rastreamento. Ele destaca a vulnerabilidade dos ciclistas. “Nem precisa de faca. Se você empurra um ciclista, ele pode bater a cabeça e morrer”, alerta.
Horas após o ataque ao médico, uma mulher foi esfaqueada, na tarde de ontem, em assalto em São Conrado. Ele foi ferida nas pernas, mas passa bem.